Angiotomografia de coronárias: quando é melhor que o escore de cálcio
Angiotomografia de coronárias: para que serve, preparo e como ler o CAD-RADS
Resumo rápido
- A angiotomografia de coronárias é uma tomografia com contraste que mostra as placas, com e sem cálcio, e os estreitamentos.
- É primeira linha para investigar dor no peito estável com chance baixa a intermediária de doença.
- Não é check-up: sem sintomas, quem ajuda a decidir a prevenção é o escore de cálcio.
- O laudo usa o CAD-RADS, de 0 a 5: placa leve pede estatina e meta de LDL; estreitamento importante, o cardiologista.
- Avise sobre alergia a contraste, doença nos rins, metformina e gravidez.
Imagine duas pessoas com pedido de angiotomografia de coronárias. Ele, de 58 anos, sente aperto no peito ao subir ladeira, que passa ao parar. Ela, de 50 anos e sem sintomas, quer "ver as artérias" como check-up.
Para ele, o exame é a ferramenta certa; para ela, em geral, não: se a dúvida é começar estatina, o escore de cálcio responde sem contraste e com menos radiação.
Perceba que o exame é o mesmo; muda a pergunta. A seguir, explico quando ele vale mais que o escore, como ler o laudo e o que muda no tratamento, sempre com sintomas e histórico.
O que Você Precisa Saber
Ela vê o que o escore de cálcio não vê. Placa sem cálcio e o grau de estreitamento só aparecem com contraste.
É exame de quem tem sintomas. Aperto no peito aos esforços, falta de ar sem explicação ou teste de esforço alterado.
Normal ou com placa leve, evita o cateterismo. O exame invasivo fica para estreitamentos importantes.
Placa no laudo muda a meta de LDL. Pela diretriz brasileira de 2025, é risco alto.
O que é a angiotomografia de coronárias: o mapa das artérias por dentro
Costumo explicar assim: se o escore de cálcio é a foto das cicatrizes da placa, a angiotomografia é o mapa do cano por dentro. O contraste enche as coronárias, as artérias do coração, e mostra a placa, calcificada ou não calcificada, e quanto ela estreita a passagem.
tomografia do coração com contraste iodado na veia, sincronizada com o eletrocardiograma, que mostra as placas das coronárias, com e sem cálcio, e o estreitamento que causam.
Com eletrodos no peito, você recebe o contraste na veia do braço e segura a respiração por alguns segundos. Um grande serviço brasileiro busca frequência de até 65 batimentos por minuto, com betabloqueador se preciso, e usa nitrato sob a língua. O exame leva de 10 a 15 minutos; o preparo, até uma hora e meia.
Num registro de 2017, com 4.502 exames em 32 países, a dose mediana ficou entre cerca de 3 e 5 mSv, conforme o cálculo, menos de um quarto da de 2007. O escore de cálcio fica em até cerca de 1 mSv; a radiação natural, em cerca de 3 mSv por ano.
Escore de cálcio ou angiotomografia: o que cada um responde
No pedido "angiotomografia com escore de cálcio", os dois saem no mesmo exame.
| Escore de cálcio | Angiotomografia de coronárias | |
|---|---|---|
| Contraste | Não usa | Contraste iodado na veia |
| Radiação | Até cerca de 1 mSv | Cerca de 3 a 5 mSv nos aparelhos atuais |
| O que mostra | Só o cálcio das placas | Placas com e sem cálcio e o grau de estreitamento |
| Para quem | Sem sintomas, em dúvida sobre a estatina | Com sintomas ou teste de esforço alterado |
| O que muda | Risco e meta de LDL | Risco e decisão sobre teste funcional ou cateterismo |
Quando a angiotomografia está indicada
A indicação principal é dor no peito estável ou falta de ar aos esforços, com suspeita de doença coronária.
- Diretriz europeia (ESC, 2024): classe I, a mais forte, nível de evidência A, para chance acima de 5% até 50%; acima de 85%, vai-se direto ao cateterismo.
- Diretriz americana de dor torácica (2021): classe 1, nível A, no risco intermediário a alto, sem doença coronária conhecida.
- Diretriz brasileira de síndrome coronariana crônica (2025): indicada no risco intermediário e intermediário a alto; no baixo, com recomendação mais fraca.
No estudo escocês SCOT-HEART (2018), 4.146 pessoas com dor no peito estável foram sorteadas para a avaliação habitual com ou sem angiotomografia. Em cinco anos, morte por doença coronária ou infarto foi de 2,3% com o exame e de 3,9% sem ele; quem fez o exame recebeu mais tratamento preventivo.
Angiotomografia ou cateterismo? O cateterismo é invasivo: o cateter vai pela artéria até o coração e permite tratar na hora. No estudo DISCHARGE (2022), com 3.561 pessoas com dor estável encaminhadas ao cateterismo, começar pela angiotomografia teve taxa parecida de infarto, AVC ou morte cardiovascular em 3,5 anos (2,1% contra 3,0%) e menos complicações graves (0,5% contra 1,9%).
Dor forte e súbita, com suor frio, falta de ar ou desmaio, é urgência: SAMU (192).
Quando a angiotomografia não está indicada
Check-up sem sintomas. O Colégio Americano de Cardiologia (campanha Choosing Wisely) desaconselha imagem cardíaca avançada como exame inicial de quem não tem sintomas, salvo marcadores de alto risco. Por isso, não peço angiotomografia como check-up. A prevenção se decide com a conta do risco cardiovascular, o escore de cálcio, a lipoproteína(a) e, às vezes, a PCR ultrassensível.
Escore zero com sintomas. Não afasta placa.
No registro CONFIRM, com 10.037 pessoas com sintomas, metade teve escore de cálcio zero. Na angiotomografia, 13% delas tinham placa sem estreitamento importante, 3,5% estreitamento de 50% ou mais e 1,4%, de 70% ou mais; o estreitamento se associou a mais eventos.
Escore zero sem sintomas, no jovem fumante ou com história familiar forte. O zero não tira a indicação de tratar (escore de cálcio zero); a angiotomografia é exceção, a discutir com o cardiologista.
Como ler o laudo: o CAD-RADS 2.0
classificação americana do laudo, revisada em 2022: um número de 0 a 5, dado pelo estreitamento mais importante, com complementos como P1 a P4 e HRP.
| CAD-RADS | Maior estreitamento | O que costuma vir depois |
|---|---|---|
| 0 | Nenhuma placa | Em geral, nenhum outro exame |
| 1 | 1% a 24% | Controle dos fatores de risco e tratamento preventivo |
| 2 | 25% a 49% | O mesmo, mais intenso se houver muita placa |
| 3 | 50% a 69% | Considerar teste funcional, que mostra se falta sangue ao coração |
| 4A | 70% a 99% em uma ou duas artérias | Cateterismo ou teste funcional |
| 4B | Tronco da coronária esquerda com 50% ou mais, ou três artérias com 70% ou mais | Cateterismo e possível revascularização |
| 5 | Artéria fechada | Avaliação com o cardiologista, conforme o caso |
P1 a P4. Carga total de placa, de leve a extensa. Pelo escore de cálcio, P1 vai de 1 a 100, P2 de 101 a 300, P3 de 301 a 999 e P4, de 1.000 ou mais.
HRP. A mesma placa reúne pelo menos dois de quatro sinais: cresce para fora da parede, tem baixa densidade, pontinhos de cálcio ou aspecto de "anel de guardanapo".
O que muda no tratamento
Pela Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025, placas com menos de 50% de estreitamento na angiotomografia de coronárias colocam a pessoa no risco cardiovascular alto, com meta de LDL abaixo de 70 mg/dL e queda de pelo menos 50%. Obstrução de 50% ou mais leva ao risco muito alto, com meta abaixo de 50 mg/dL.
CAD-RADS 1 e 2. Trato o risco, em geral com estatina, até a meta de LDL. Não é caso de cateterismo.
CAD-RADS 3 em diante. Além da meta, o cardiologista decide entre teste funcional, cateterismo e remédios para angina; o colesterol pode ficar com ele ou com o endocrinologista (veja colesterol: endocrinologista ou cardiologista).
Não se repete o exame para ver a placa: o efeito aparece no LDL, de 4 a 12 semanas após iniciar ou ajustar o remédio.
Contraindicações, cuidados e preparo
Avise a equipe:
- Alergia a contraste iodado: a equipe decide entre preparo antialérgico, outro exame ou adiar.
- Doença nos rins: é restrição citada pela diretriz brasileira de 2025; serviços pedem creatinina de até 90 dias acima dos 60 anos ou com doença renal, pressão alta ou diabetes.
- Metformina: com filtração renal de 30 ou mais e contraste na veia, em geral se mantém; abaixo de 30 ou com lesão renal aguda, suspende-se por 48 horas, até reavaliar os rins. Veja metformina e contraste.
- Gravidez ou atraso menstrual: não se faz, salvo necessidade imprescindível.
- Sildenafila, tadalafila ou remédios parecidos: o nitrato usado no exame não pode ser combinado com eles; o serviço orienta quanto tempo antes suspender.
Em geral, não é preciso jejum; um serviço sugere 4 horas para quem tem enjoo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- O que é a angiotomografia de coronárias e para que serve?
É uma tomografia do coração com contraste na veia que mostra as coronárias por dentro: placas com e sem cálcio e quanto elas estreitam a passagem do sangue. Serve para investigar aperto no peito aos esforços, falta de ar sem explicação ou teste de esforço alterado. Não é check-up para quem não tem sintomas.
- Como é feita a angiotomografia de coronárias? Dói?
Não dói. O contraste entra por uma veia do braço, com eletrodos no peito, e você segura a respiração por alguns segundos. Às vezes, o serviço dá remédio para baixar a frequência cardíaca e um nitrato sob a língua. O exame leva de 10 a 15 minutos, e o preparo, até uma hora e meia.
- Angiotomografia de coronárias tem preparo ou precisa de jejum?
Em geral, não é preciso jejum; um serviço sugere 4 horas para quem tem enjoo. Avise sobre alergia a contraste, doença nos rins, metformina, gravidez e remédios para ereção. Acima dos 60 anos, ou com doença renal, pressão alta ou diabetes, costuma-se pedir creatinina recente. Siga o preparo do serviço.
- A angiotomografia de coronárias é perigosa?
Reações ao contraste são raras e, em geral, leves. Os cuidados são com alergia, doença renal e radiação: cerca de 3 a 5 mSv nos aparelhos atuais, o equivalente a um ou dois anos de radiação natural. Por isso, só se pede quando o resultado pode mudar a conduta. Na gravidez, não é feita.
- Angiotomografia de coronárias é o mesmo que cateterismo? Qual é melhor?
Não. A angiotomografia não é invasiva: o contraste entra por uma veia do braço. O cateterismo leva um cateter pela artéria até o coração e permite tratar na hora. Na dor estável, começar pela angiotomografia teve resultados parecidos e menos complicações no estudo DISCHARGE. Com chance muito alta de doença, vai-se direto ao cateterismo.
- Qual a diferença entre angiotomografia e escore de cálcio?
O escore de cálcio não usa contraste, tem até cerca de 1 mSv e mede só o cálcio das placas, para decidir a prevenção sem sintomas. A angiotomografia usa contraste, tem mais radiação e mostra placas com e sem cálcio e os estreitamentos, para investigar sintomas. Sem contraste, o exame possível é o escore.
- O que significa CAD-RADS 2 ou 4A no laudo?
CAD-RADS 2 é estreitamento de 25% a 49%: pede tratar o risco, em geral com estatina e LDL abaixo de 70 mg/dL. CAD-RADS 4A é estreitamento de 70% a 99% em uma ou duas artérias: pede cateterismo ou teste funcional, com o cardiologista. P1 a P4, ao lado, indicam a carga de placa.
- Placa não calcificada na artéria: o que significa?
É placa de gordura que ainda não endureceu com cálcio: aparece na angiotomografia, não no escore de cálcio. É aterosclerose: pela diretriz brasileira de 2025, placa com menos de 50% de estreitamento já é risco alto, com meta de LDL abaixo de 70 mg/dL e queda de pelo menos 50%.
Entenda o seu risco com orientação individual
Com sintomas ou com o laudo em mãos, vale uma avaliação individual.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
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