Cintilografia de tireoide: quando o exame é útil e como se preparar
Cintilografia de tireoide e captação de iodo: preparo, nódulo quente e como ler o resultado
Resumo rápido
- A cintilografia de tireoide usa uma dose mínima de tecnécio ou de iodo; uma câmera mostra onde a glândula capta mais e onde capta menos.
- Ajuda em poucas situações: nódulo com TSH baixo, dúvida entre Graves e tireoidite, bócio multinodular e tireoide fora do lugar.
- Nódulo quente raramente é câncer e, em geral, dispensa punção; o frio segue a regra do ultrassom.
- Iodo em excesso e remédios da tireoide atrapalham; o serviço de medicina nuclear e o seu médico orientam os prazos.
- Não se faz na gestação e, na amamentação, costuma ser adiada. A radiação é baixa.
Imagine que ela tem 61 anos e um nódulo de 2,2 cm, TI-RADS 4. Pelo tamanho, seria hora de punção, mas o TSH veio em 0,2 mUI/L, abaixo do normal, e o pedido foi uma cintilografia de tireoide. "É radioativo? Por que não a punção?"
O TSH baixo sugere um nódulo "quente", que fabrica hormônio sozinho. Se a imagem confirmar, a agulha em geral fica de fora: esse nódulo raramente é câncer.
A seguir, explico quando o exame ajuda, como se preparar e como ler o laudo, sempre com o ultrassom e a sua história.
O que Você Precisa Saber
É um exame de função, não de forma. O ultrassom desenha o nódulo; a cintilografia mostra se ele trabalha.
Quem chama a cintilografia é o TSH. Com TSH normal ou alto, o nódulo segue pelo ultrassom.
Frio não quer dizer câncer. Só de 5% a 10% dos nódulos solitários são quentes, e a grande maioria dos nódulos é benigna.
Iodo em excesso atrapalha o exame. Contraste, algas e amiodarona fazem a tireoide captar pouco por semanas ou meses.
O que é a cintilografia de tireoide: um mapa de calor da glândula
Costumo explicar com uma câmera térmica. A tireoide puxa iodo do sangue para fabricar hormônio; na cintilografia, recebe uma substância que emite radiação fraca, e a câmera monta um mapa: o que capta muito aparece "quente"; o que capta pouco, "frio".
substância levemente radioativa, em dose mínima, que permite a uma câmera especial enxergar um órgão funcionando.
Há dois radiofármacos principais:
- Tecnécio-99m: injetado na veia, com imagens cerca de 20 minutos depois. Pela diretriz europeia de nódulos (2023), é o mais usado, pelo custo e pela radiação baixa, mas, numa minoria, faz um nódulo frio parecer quente.
- Iodo-123: em cápsula, com imagens horas depois; é o preferido da diretriz americana de nódulos (2015). Alguns serviços usam iodo-131, em dose diagnóstica, na captação.
Cintilografia e captação de iodo: a imagem e o número
A cintilografia é a imagem; a captação de iodo, o número: a porcentagem da dose que a tireoide reteve. Pela Associação Americana de Tireoide (ATA, 2016), costuma ser medida em 24 horas; muitos serviços fazem também uma leitura entre 2 e 6 horas. A faixa normal muda com o iodo da alimentação; vale a do laudo.
Pela diretriz americana de hipertireoidismo de 2016, a captação de iodo costuma ser alta na doença de Graves, normal ou alta no bócio nodular tóxico e perto de zero nas tireoidites indolor, pós-parto e subaguda, no uso de hormônio em comprimido e depois de uma sobrecarga recente de iodo.
Quando a cintilografia de tireoide é útil
| Situação | O que a cintilografia mostra | O que costuma mudar |
|---|---|---|
| Nódulo com TSH baixo | Se o nódulo é quente, morno ou frio | Quente: em geral, sem punção. Morno ou frio: regra do TI-RADS |
| Excesso de hormônio sem causa clara | Captação alta e difusa (Graves) ou quase zero (tireoidite) | Graves: metimazol, iodo radioativo ou cirurgia. Tireoidite: alívio dos sintomas |
| Bócio multinodular com TSH baixo | Áreas quentes e frias | Quais nódulos puncionar; se cabe iodo radioativo |
| Suspeita de tireoide fora do lugar | Onde está o tecido que capta | Confirma tecido ectópico |
Nódulo com TSH baixo. É a regra das páginas sobre TI-RADS e punção de tireoide; o nódulo frio ou morno volta para a regra do guia de nódulos de tireoide.
Pela diretriz americana de nódulos de tireoide (ATA, 2015), TSH abaixo do normal pede cintilografia, e o nódulo quente que corresponde ao do ultrassom dispensa punção, porque raramente é maligno. A diretriz europeia (2023) estende a indicação ao TSH no limite inferior, estima que de 5% a 10% dos nódulos solitários sejam quentes e só os punciona se muito suspeitos.
Se o nódulo quente causa hipertireoidismo, as opções incluem iodo radioativo e cirurgia; no subclínico, às vezes basta acompanhar (veja TSH baixo com T4 normal).
Graves ou tireoidite. O TRAb, anticorpo da Graves, e o ultrassom com Doppler costumam resolver; eu reservo a cintilografia para quando não bastam. Veja Graves ou tireoidite e hipertireoidismo.
Bócio multinodular e tireoide fora do lugar. A diretriz europeia usa a cintilografia para escolher os nódulos frios a puncionar. Para as sociedades europeia e americana de medicina nuclear (2019), é o método mais preciso para achar tecido ectópico.
Depois do câncer de tireoide, a pesquisa de corpo inteiro com iodo radioativo é outro exame.
Quando a cintilografia não ajuda
Nódulo com TSH normal ou alto. Aqui as escolas divergem. Para a ATA (2015), a cintilografia não deve ser o exame inicial. A diretriz europeia (2023) a admite com TSH normal em regiões com falta de iodo, atual ou passada, e no bócio multinodular. Eu a uso no nódulo com TSH baixo ou no limite inferior.
Hipotireoidismo e check-up. TSH e T4 livre fazem o diagnóstico (exame de tireoide); na lista da diretriz holandesa de medicina nuclear, só o do recém-nascido é indicação, e rastreio não aparece.
Amiodarona. Cada comprimido de 200 mg tem cerca de 75 mg de iodo, e o remédio leva semanas a meses para sair do corpo; pela ATA, a captação pode ficar abaixo de 1% (veja amiodarona e tireoide).
Gestação, amamentação e radiação
Gestação e amamentação. A ATA (2016) exclui a captação na gravidez e, em geral, na amamentação; TRAb e Doppler costumam bastar. Se o exame for indispensável em quem amamenta, a pausa depende do radiofármaco: 12 horas com tecnécio, pela diretriz holandesa; com iodo-123, de três a quatro dias, pela ATA (2017), a três semanas, pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica. Tirar e guardar leite antes ajuda.
Radiação. Pelas doses e coeficientes da mesma diretriz holandesa, a cintilografia fica, em geral, entre 1 e 2 milisievert (mSv), da ordem da radiação natural de um ano: 2,4 mSv, em média, no mundo, pelo comitê científico da ONU (UNSCEAR).
Como se preparar para a cintilografia de tireoide
Tireoide cheia de iodo, ou freada por remédio, capta pouco. Os prazos abaixo são da sociedade americana de medicina nuclear (SNMMI, 2012), para o iodo radioativo; o seu é definido pelo serviço e pelo seu médico.
| O que interfere | Prazo pela SNMMI | Outras fontes |
|---|---|---|
| Metimazol e propiltiouracil | 3 dias | Holandesa: 15 dias para o propiltiouracil isolado |
| Levotiroxina | 3 a 4 semanas | Holandesa: 4 semanas |
| Liotironina (T3) | 10 a 14 dias | |
| Polivitamínicos com iodo | 7 a 10 dias | |
| Algas, solução de Lugol, iodeto de potássio, iodo na pele | 2 a 3 semanas | |
| Contraste iodado (tomografia, cateterismo) | 6 a 8 semanas, com rim normal | ATA: 1 a 2 meses; holandesa: 3 semanas a 6 meses |
| Amiodarona | 3 a 6 meses ou mais | Só o médico que prescreveu decide |
Nunca suspenda remédio por conta própria: parar o metimazol sem orientação pode descompensar o hipertireoidismo.
Outros cuidados:
- Jejum: com tecnécio, em geral não precisa; com a cápsula de iodo, muitos serviços pedem algumas horas.
- Alimentação: alguns serviços pedem dieta pobre em iodo nos dias anteriores.
- Avise: exame recente com contraste, gravidez ou amamentação.
O que o laudo da cintilografia diz
quente é o nódulo que capta mais que a tireoide em volta; morno, igual; frio, menos.
O laudo descreve a posição da tireoide, a distribuição do radiofármaco (difusa, como na Graves, ou concentrada em pontos, como nos nódulos que produzem hormônio), cada nódulo e a captação, se medida. O nódulo quente só dispensa punção se for o mesmo do ultrassom.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Para que serve a cintilografia de tireoide?
Para ver como a tireoide funciona, área por área. Mostra se um nódulo produz hormônio sozinho, ajuda a separar a doença de Graves da tireoidite, mapeia o bócio multinodular e acha tecido de tireoide fora do lugar. Não diagnostica câncer nem hipotireoidismo e não é check-up: entra com TSH baixo ou excesso de hormônio sem causa clara.
- Qual a diferença entre cintilografia de tireoide e captação de iodo?
A cintilografia é a imagem: mostra onde a tireoide capta o radiofármaco. A captação é um número: a porcentagem da dose de iodo que a glândula reteve, em geral em 24 horas. Muitas vezes, são feitas juntas. Captação alta sugere Graves; perto de zero, tireoidite, hormônio em comprimido ou excesso recente de iodo.
- Cintilografia de tireoide com tecnécio ou com iodo: qual a diferença?
O tecnécio é injetado na veia, e as imagens saem em cerca de 20 minutos; pela diretriz europeia, é o mais usado. O iodo é tomado em cápsula, com imagens horas depois e no dia seguinte. A diretriz americana prefere o iodo-123 para nódulos; a europeia lembra que o tecnécio, numa minoria, faz um nódulo frio parecer quente.
- Cintilografia de tireoide precisa de preparo? Preciso parar a levotiroxina ou o metimazol?
Precisa, e quem orienta é o serviço de medicina nuclear, com o seu médico. Pela tabela da sociedade americana de medicina nuclear (SNMMI), a levotiroxina sai de 3 a 4 semanas antes; o metimazol, 3 dias; o contraste iodado pede de 6 a 8 semanas. Nunca suspenda por conta própria: parar o metimazol pode descompensar o hipertireoidismo.
- Como é feita a cintilografia de tireoide? Dói?
Com tecnécio, há uma picada na veia e, num serviço brasileiro, cerca de 20 minutos de espera e de 15 a 20 minutos de imagens. Com iodo, engole-se uma cápsula, e as imagens saem horas depois e no dia seguinte. Fora a picada, não dói, e a radiação é baixa.
- Nódulo quente ou frio na cintilografia: o que significa? Pode ser câncer?
Quente capta mais que o restante da tireoide, porque produz hormônio sozinho; pela diretriz europeia, é benigno com raríssimas exceções e só se punciona se muito suspeito. Frio capta menos, como a maioria dos nódulos, e em geral também é benigno, mas a cintilografia não o separa do maligno: vale a regra do TI-RADS.
- Preciso de cintilografia para confirmar a doença de Graves?
Nem sempre. Pela diretriz americana de 2016, a causa se esclarece com TRAb, captação de iodo ou ultrassom com Doppler, e o TRAb positivo confirma a Graves, a causa mais comum. Com olhos afetados e tireoide aumentada por igual, o diagnóstico costuma ser clínico. A cintilografia entra quando a dúvida persiste, como entre Graves e tireoidite.
- Grávida ou amamentando pode fazer cintilografia de tireoide?
Na gestação, não: TRAb e ultrassom com Doppler respondem à maioria das dúvidas, e a cintilografia em geral pode esperar o parto. Na amamentação, o exame em geral é adiado. Se for indispensável, a pausa depende do radiofármaco: 12 horas com tecnécio, pela diretriz holandesa; com iodo-123, de três dias a três semanas, conforme a fonte.
Entenda o seu exame com orientação individual
Se recebeu um pedido de cintilografia, leve os laudos e as imagens do ultrassom e anote as perguntas para fazer ao endocrinologista.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
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