Escore de cálcio coronariano: quem deve fazer e como interpretar o resultado
Escore de cálcio: o que o exame mede, para quem serve e o que significam zero, 100 e 300
Resumo rápido
- O escore de cálcio é uma tomografia rápida, sem contraste e com dose baixa de radiação, que mede o cálcio já depositado nas artérias do coração.
- Serve para quem não tem sintomas e está em dúvida sobre começar estatina, sobretudo no risco intermediário, depois dos 40 anos.
- Pela diretriz brasileira de 2025, acima de 100, ou do percentil 75 para idade e sexo, o risco é alto; acima de 300, muito alto.
- Zero, sem outros fatores fortes, muitas vezes permite adiar a estatina, mas não anula diabetes, cigarro, LDL a partir de 190 nem história familiar forte.
- Não investiga dor no peito nem acompanha o tratamento: a estatina pode até aumentar o escore.
Ela tem 57 anos, não fuma, não tem diabetes e traz LDL de 148 mg/dL. Pelo escore PREVENT, a chance de infarto ou AVC em 10 anos é de 7%: risco intermediário, meta de LDL abaixo de 100. Não quer remédio sem certeza e pergunta se o escore de cálcio pode ajudar a decidir.
Veio zero: ajustamos hábitos e combinamos reavaliar em alguns anos. Outro paciente, de 55 anos e com números parecidos, trouxe escore de 180: risco alto, meta abaixo de 70 e estatina.
Perceba que o exame não mudou o colesterol de ninguém; mudou a leitura do risco. A seguir, explico quem deve fazer, como ler o laudo e o que muda no tratamento; o número é sempre lido com a história e os outros exames.
O que Você Precisa Saber
O exame mostra a cicatriz, não a placa inteira. Ele enxerga só a parte da placa que calcificou: mais cálcio significa mais placa, mas o zero não garante artérias limpas.
Ele serve para desempatar. Antes de pedir, pergunto: o que faremos se vier zero, e se vier alto? Se as respostas forem iguais, o exame não ajuda.
O mesmo número muda com o contexto. Idade, sexo, LDL, diabetes, cigarro e história familiar mudam o peso do resultado.
Não é exame de acompanhamento. Depois que o tratamento começa, quem guia é o LDL.
O que é o escore de cálcio coronariano: a foto das cicatrizes
Costumo explicar assim: a placa de gordura na parede da artéria começa mole e, com os anos, parte dela endurece com cálcio, como uma cicatriz. O escore de cálcio é a fotografia dessas cicatrizes; a placa recente, ainda mole, não aparece na foto.
tomografia do coração sem contraste, sincronizada com o eletrocardiograma, que soma o cálcio depositado nas artérias coronárias. O número, chamado escore de Agatston, leva em conta a área e a densidade de cada mancha de cálcio.
Você deita com eletrodos no peito e segura a respiração por alguns segundos. As imagens levam poucos minutos, e o exame todo, cerca de 15 a 20. Os serviços de imagem não pedem jejum e orientam manter os remédios do dia. Não se faz na gravidez.
A dose de radiação não passa de cerca de 1 mSv, parecida com a de uma mamografia (cerca de 0,8 mSv) e menor que a radiação natural de um ano (cerca de 3 mSv). Ainda assim, só faz sentido quando o resultado pode mudar uma decisão.
Para quem o escore de cálcio serve
O exame é para quem não tem sintomas e está na zona cinzenta: a conta do risco não deixa claro se a estatina vale a pena.
Pela Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025, ele é recomendado depois dos 40 anos, no risco intermediário (PREVENT de 5% a menos de 20% em 10 anos), com LDL entre 70 e 159 mg/dL e estatina em dúvida. Pode ser considerado no risco baixo com história familiar precoce: pai, mãe ou irmão com infarto ou AVC antes dos 55 anos (homens) ou dos 65 (mulheres). Explico a conta em como calcular o risco cardiovascular.
Nos Estados Unidos, as faixas mudaram com o PREVENT. A diretriz de 2018, com a calculadora antiga, usava risco de 7,5% a menos de 20%; a de 2026 indica o exame a partir dos 40 anos nos homens e dos 45 nas mulheres, com PREVENT de 3% a menos de 10%. Num estudo americano, o PREVENT estimou risco médio de 4% em 10 anos, metade dos 8% da calculadora antiga.
Quando o escore de cálcio não ajuda
Dor no peito ou falta de ar aos esforços. Sintomas pedem outra investigação, como teste de esforço ou angiotomografia. Dor forte, desmaio ou falta de ar súbita são urgência: SAMU (192).
Tratamento já indicado. Infarto, AVC ou angioplastia prévios, risco alto pelo cálculo, diabetes com lesão em rins, olhos ou nervos e LDL acima de 190 dispensam o exame para decidir. O mesmo vale para quem já usa estatina por indicação clara.
Check-up de todos. As diretrizes não recomendam o exame como rastreio geral, e em jovens a placa costuma ainda não ter calcificado.
Como ler o laudo: escore de Agatston, percentil e número de artérias
O laudo traz o escore total e, muitas vezes, o percentil e a distribuição por artéria. A tabela orienta; não substitui a avaliação.
| Escore de Agatston | O que significa | O que costuma vir depois |
|---|---|---|
| 0 | Sem cálcio detectável | Sem fatores fortes, muitas vezes permite adiar a estatina, com reavaliação |
| 1 a 99 | Placa presente, em pequena quantidade | A balança pende para tratar; acima do percentil 75, conta como risco alto |
| 100 a 299 | Aterosclerose sem sintomas, em quantidade relevante | Risco alto: meta de LDL abaixo de 70 e queda de pelo menos 50% |
| 300 ou mais | Carga alta de placa | Risco muito alto: meta de LDL abaixo de 50 |
As faixas seguem o padrão de laudo da sociedade americana de tomografia cardiovascular; laudos e estudos antigos podem usar 400 como segundo corte.
posição do seu resultado entre pessoas da mesma idade, sexo e etnia. Percentil 75 significa escore maior que o de 75 em cada 100 delas.
O percentil pesa mais em jovens: pouco cálcio aos 45 anos pode passar do percentil 75 e já indicar risco alto. A referência mais usada é a calculadora do estudo americano MESA, válida dos 45 aos 84 anos para brancos, negros, hispânicos e chineses; o ELSA-Brasil publicou percentis brasileiros em 2016.
O laudo também mostra quais das quatro artérias principais têm cálcio: tronco da coronária esquerda, descendente anterior, circunflexa e coronária direita. Cálcio em várias delas pesa mais.
No estudo americano MESA, com 6.814 pessoas de 45 a 84 anos acompanhadas por cerca de 11 anos, a taxa de infarto, AVC e outros eventos ateroscleróticos em 10 anos ficou entre 1,3% e 5,6% com escore zero e entre 13,1% e 25,6% com escore acima de 300, conforme o subgrupo.
O que muda na conduta com cada resultado
Escore de cálcio zero. Indica ausência de cálcio detectável naquele exame, não ausência de placa nem de risco futuro. No risco intermediário, com dúvida real, muitas vezes permite adiar a estatina, mantendo hábitos e reavaliação. Não retira a indicação de tratar com LDL a partir de 190, diabetes, tabagismo atual, história familiar forte de infarto ou AVC em idade jovem, lipoproteína(a) elevada ou doença cardiovascular estabelecida. Cigarro, diabetes e história familiar forte já eram exceções na diretriz americana de 2018. Nunca suspenda a estatina por conta própria; detalho em escore de cálcio zero e colesterol.
De 1 a 99. A placa começou. Nos Estados Unidos, isso favorece a estatina, sobretudo a partir dos 55 anos (diretriz de 2018). Pela brasileira, acima do percentil 75 já é risco alto.
Acima de 100 ou do percentil 75. É aterosclerose subclínica, ou seja, placa sem sintomas: risco alto, meta de LDL abaixo de 70 mg/dL e queda de pelo menos 50%, em geral com estatina.
Acima de 300. Risco muito alto, com meta de LDL abaixo de 50. Na hipercolesterolemia familiar, acima de 100 já é risco muito alto. As metas completas estão em meta de LDL.
Pela Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025, um escore de cálcio acima de 100, ou acima do percentil 75 para idade e sexo, classifica a pessoa como de alto risco cardiovascular, com meta de LDL abaixo de 70 mg/dL. Acima de 300, o risco passa a muito alto, com meta abaixo de 50 mg/dL.
Escore alto, sem sintomas, não significa cateterismo: significa tratar o risco. Como costumo dizer, não existe equilíbrio, existe prioridade: com placa documentada, o hábito soma com o remédio, não o substitui. Quem conduz pode ser o endocrinologista, o cardiologista ou ambos; veja colesterol: endocrinologista ou cardiologista.
A estatina aumenta o escore de cálcio? Por que não repetir para acompanhar
Pode aumentar. Numa análise de oito estudos que examinaram as coronárias com ultrassom por dentro do vaso, a placa de quem usava estatina ganhou mais cálcio que a de quem não usava. Os autores interpretam isso como estabilização da placa.
Por isso, escore que sobe no tratamento não é fracasso, e o exame não serve para acompanhar a resposta. Quem mostra o efeito é o perfil lipídico: LDL, colesterol não-HDL e, quando indicado, ApoB, de 4 a 12 semanas após iniciar ou ajustar o remédio.
E quando repetir? O zero costuma se manter por 3 a 7 anos, conforme sexo, etnia e risco, e por menos tempo no diabetes. Não é exame anual, mas também não é para nunca mais repetir: o intervalo depende da decisão em jogo. Com escore positivo e tratamento em curso, em geral não há o que repetir.
Escore de cálcio ou angiotomografia de coronárias
| Escore de cálcio | Angiotomografia de coronárias | |
|---|---|---|
| Contraste | Não usa | Usa contraste na veia |
| O que mostra | Só o cálcio das placas | Placas com e sem cálcio e estreitamentos |
| Radiação | Até cerca de 1 mSv | Maior |
| Para quem | Sem sintomas, para decidir a prevenção | Investigação de sintomas ou de teste alterado |
Mulheres e diabetes: o que muda na leitura
Mulheres. O cálcio costuma aparecer mais tarde; por isso, a diretriz americana de 2026 indica o exame a partir dos 45 anos. Quando aparece, pesa mais: num estudo com 63.215 pessoas sem sintomas, o risco de morte cardiovascular foi parecido entre os sexos sem cálcio e 1,3 vez maior nas mulheres com cálcio. Pré-eclâmpsia, diabetes ou hipertensão na gestação e menopausa antes dos 40 anos também contam.
Diabetes. A maioria dos adultos com diabetes a partir dos 40 anos já tem indicação de estatina, e o zero vale por menos tempo. O exame ajuda mais em homens com menos de 50 anos e mulheres com menos de 56, sem estratificadores, que a diretriz brasileira põe no risco intermediário: escore entre 10 e 300 leva ao risco alto; acima de 300, ao muito alto.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- O que é o escore de cálcio e como é feito o exame?
É uma tomografia do coração, não um exame de sangue. Você deita com eletrodos no peito e segura a respiração por alguns segundos; as imagens levam poucos minutos, sem contraste e com até cerca de 1 mSv de radiação. Não costuma exigir jejum, e os remédios do dia são mantidos. O resultado sai em unidades Agatston.
- Quem deve fazer o escore de cálcio?
Quem não tem sintomas e está em dúvida sobre começar estatina. A diretriz brasileira de 2025 recomenda o exame depois dos 40 anos, no risco intermediário, com LDL entre 70 e 159 mg/dL; no risco baixo, pode ser considerado com história familiar precoce. Quem já teve infarto ou AVC, tem LDL a partir de 190 ou dor no peito não precisa dele para decidir.
- Escore de cálcio zero: o que significa?
Que não havia cálcio detectável nas coronárias naquele exame; a placa mole não aparece. No risco intermediário, sem outros fatores fortes, muitas vezes permite adiar a estatina, com reavaliação. Não vale para quem fuma, tem diabetes, LDL a partir de 190, história familiar forte, Lp(a) elevada ou doença cardiovascular. Costuma valer de 3 a 7 anos, menos no diabetes.
- O que significa escore de cálcio acima de 100?
Que já existe aterosclerose em quantidade relevante. Pela diretriz brasileira de 2025, acima de 100, ou do percentil 75, o risco é alto e a meta de LDL fica abaixo de 70 mg/dL; acima de 300, o risco é muito alto, com meta abaixo de 50.
- Escore de cálcio alto: o que fazer?
Sem sintomas, a resposta é tratar o risco, não correr para o cateterismo. Em geral, entra estatina com meta de LDL mais baixa, além do controle de pressão, glicose, peso e cigarro. Leve o laudo completo à consulta. Dor no peito ou falta de ar aos esforços pedem avaliação rápida.
- O que significa percentil 75 ou 90 no escore de cálcio?
Compara o seu resultado com o de pessoas da mesma idade, sexo e etnia: percentil 90 é escore maior que o de 90 em cada 100 delas. Pela diretriz brasileira, acima do percentil 75 já é risco alto, mesmo com escore abaixo de 100. Isso pesa sobretudo em jovens, em quem pouco cálcio já é muito para a idade.
- O escore de cálcio pode diminuir?
Não é esse o objetivo do tratamento. A estatina, que reduz o risco de infarto, pode até aumentar o escore, porque a placa calcifica e se estabiliza. Por isso, um número que sobe durante o tratamento não é fracasso, e o exame não é repetido para acompanhar o remédio: quem mostra o efeito é o LDL.
- Qual a diferença entre escore de cálcio e angiotomografia de coronárias?
O escore de cálcio não usa contraste e mede só o cálcio das placas, para decidir a prevenção em quem não tem sintomas. A angiotomografia usa contraste na veia, tem mais radiação e mostra placas com e sem cálcio e os estreitamentos. É usada para investigar sintomas ou um teste de esforço alterado, não como rotina.
Entenda o seu risco com orientação individual
Em dúvida sobre fazer o exame ou com o laudo em mãos, vale uma avaliação completa. Se a consulta for por telemedicina, veja como se preparar para a teleconsulta.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
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