Exames na menopausa: o que pedir no check-up e por que dosar hormônios quase nunca é necessário
Exames para menopausa: quando o FSH ajuda e qual check-up fazer
Resumo rápido
- Depois dos 45 anos, com quadro típico, o diagnóstico da menopausa é clínico; FSH e estradiol não precisam ser dosados.
- Dosar faz sentido antes dos 40 anos, entre 40 e 45 com dúvida, após a retirada só do útero e em quadros atípicos.
- Painéis com testosterona, progesterona, DHEA ou saliva não diagnosticam nem orientam o tratamento.
- O check-up que importa olha pressão, cintura, colesterol, glicose, ossos e rastreamento de câncer.
- Na reposição hormonal, a dose segue os sintomas, não o estradiol no sangue.
Ela tem 51 anos, não menstrua há oito meses e traz uma pasta com o que chama de "exames da menopausa": FSH, LH, estradiol, progesterona, testosterona, DHEA e um painel de saliva, alguns repetidos três vezes. "Doutor, estou ou não estou na menopausa?"
Na pasta faltavam a mamografia, atrasada havia três anos, e um colesterol recente. A pressão, medida na consulta, estava em 146 por 92.
É um descompasso comum: muitos hormônios dosados, que não mudam a conduta, e poucos exames que mudam. A seguir, explico quando dosar hormônios, o check-up que importa e o que avaliar na reposição.
O que Você Precisa Saber
Depois dos 45 anos, a história faz o diagnóstico. Ciclos irregulares e fogachos bastam; as diretrizes britânica, europeia e brasileira dispensam exames.
Os hormônios da transição oscilam. Um FSH normal não descarta a perimenopausa, e um alto isolado não confirma a menopausa.
O exame que importa é o do risco. Depois da menopausa, LDL, pressão, glicose e massa óssea mudam em silêncio.
A reposição é guiada pelos sintomas. Não existe um "nível ideal" de estradiol a perseguir, e o laudo não escolhe a dose.
Precisa de exame para saber se está na menopausa?
Na maioria das vezes, não. Menopausa é a data da última menstruação, confirmada depois de 12 meses seguidos sem menstruar, como explico em climatério, perimenopausa e pós-menopausa.
hormônio folículo-estimulante, produzido pela hipófise para estimular os ovários. Sobe quando os ovários respondem menos, mas oscila muito durante a transição.
Costumo explicar com um termostato: quando o estrogênio cai, a hipófise "aumenta o aquecimento" e o FSH sobe. Na perimenopausa, porém, o ovário alterna meses bons e ruins, e o FSH sobe e desce junto. Sintomas e exames que afastam outras causas estão em perimenopausa: sintomas e exames.
Em mulheres com mais de 45 anos e sintomas típicos, perimenopausa e menopausa são diagnosticadas pela história clínica, sem exames de sangue, segundo o NICE britânico, a Sociedade Europeia de Endocrinologia (2025) e a FEBRASGO. Para essa faixa, o NICE desaconselha usar estradiol, hormônio antimülleriano e inibinas no diagnóstico.
Quando dosar FSH e estradiol faz sentido
O exame muda a conduta nestas situações:
- Antes dos 40 anos: é preciso investigar insuficiência ovariana prematura. Pela diretriz internacional de 2024, o critério é FSH acima de 25 UI/L com pelo menos quatro meses de ciclos irregulares ou ausentes; na dúvida, repete-se em 4 a 6 semanas. Veja menopausa precoce e insuficiência ovariana.
- Entre 40 e 45 anos, com dúvida: o FSH pode ser considerado, colhido entre o 2º e o 5º dia do ciclo ou após mais de 40 dias sem menstruar.
- Útero retirado, ovários preservados: depois dos 45 anos, os sintomas costumam bastar; em mais jovens, o FSH ajuda. Retirar os dois ovários causa menopausa imediata, tema de menopausa cirúrgica e retirada dos ovários.
- Anticoncepcional: com pílula combinada, o FSH não é confiável. Depois dos 50 anos, com DIU hormonal ou minipílula, ele pode ajudar o ginecologista a decidir quando parar a contracepção.
- Quadro atípico: falta de menstruação sem fogachos ou saída de leite pelas mamas pedem beta-hCG, prolactina e TSH.
Por que não dosar o "painel de hormônios" de rotina
Testosterona. Cai aos poucos na vida adulta, sem queda brusca na menopausa natural. Pelo consenso internacional de 2019, a dosagem não diagnostica o transtorno do desejo sexual hipoativo, única indicação com evidência para tratar; veja testosterona e libido na menopausa.
Progesterona. Varia com o ciclo, e na perimenopausa muitos ciclos não têm ovulação. Na reposição, a dose segue o esquema, não o exame.
DHEA. Diminui com a idade, e o suplemento não melhorou a função sexual na pós-menopausa.
Saliva. A Menopause Society, norte-americana, não recomenda o teste; para a Endocrine Society, as promessas desses testes não têm respaldo científico.
Hormônio antimülleriano. Estima a reserva de óvulos e ajuda na dúvida de insuficiência ovariana, mas não marca a data da menopausa.
Veja que um número "baixo" vira justificativa para tratar sem indicação. Desconfie de quem pede uma bateria de hormônios para vender "chips" de gestrinona ou de testosterona em dose alta, ou fórmulas sem padronização de dose.
O check-up que importa na menopausa
No estudo americano SWAN, com 1.054 mulheres acompanhadas até a última menstruação, o LDL subiu mais de três vezes mais rápido no ano em torno da última menstruação do que nos anos anteriores, e depois quase parou de subir. A alta acompanhou a menopausa, e não apenas a idade.
Coração e metabolismo. O que eu olho:
- Pressão, peso e cintura. Na mulher, atenção a partir de 80 cm de cintura, como explico em menopausa engorda?.
- Perfil lipídico. Não exige jejum, e a meta de LDL depende do seu risco, como mostro em meta de LDL. A lipoproteína(a) é medida uma vez na vida.
- Glicemia e hemoglobina glicada. A partir dos 35 anos, a cada três anos se normais. Glicemia de 100 a 125 mg/dL ou glicada de 5,7% a 6,4% indicam pré-diabetes, tema de menopausa e resistência à insulina.
- TSH. A FEBRASGO indica a partir dos 60 anos ou com sintomas. Como o hipotireoidismo imita sintomas da transição, vale incluí-lo na primeira avaliação.
- Risco cardiovascular calculado. O escore PREVENT, da diretriz brasileira de 2025, combina idade, colesterol, pressão, diabetes, tabagismo, IMC e função dos rins, estimada pela creatinina; menopausa antes dos 40 anos e pré-eclâmpsia agravam o risco. Veja como calcular o risco cardiovascular.
Ossos e rastreamento de câncer. A perda óssea acelera nos primeiros anos após a menopausa.
exame de raio X de baixa dose que mede a densidade dos ossos da coluna e do quadril e classifica o osso como normal, osteopenia ou osteoporose.
- Densitometria. Para todas a partir dos 65 anos; antes, na pós-menopausa, se houver fator de risco, como menopausa antes dos 45 anos, baixo peso, fratura por trauma leve, tabagismo ou corticoide prolongado. Veja osteopenia na menopausa e densitometria.
- Mamografia. A FEBRASGO e as sociedades de mastologia e de radiologia recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos. O Ministério da Saúde, desde 2025, recomenda a cada dois anos dos 50 aos 74 anos e, dos 40 aos 49, por decisão compartilhada.
- Colo do útero. O SUS está trocando o Papanicolau pelo teste de DNA-HPV, dos 25 aos 64 anos, repetido a cada cinco anos se negativo.
- Vitamina D. Não é rotina: a SBEM e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica a reservam para grupos de risco, como osteoporose, quedas e má absorção.
Mamografia e colo do útero são conduzidos pelo ginecologista; confiro se estão em dia, porque pesam na decisão sobre a reposição.
Antes da reposição hormonal: o que avaliar e o que dispensar
O que eu avalio:
- História pessoal e familiar: câncer de mama ou de endométrio, trombose, infarto, AVC, enxaqueca com aura e doença do fígado.
- Pressão e risco cardiovascular: depois dos 60 anos ou de 10 anos de pós-menopausa, mais cautela; com risco cardiovascular ou de trombose maior, prefiro o estradiol pela pele.
- Mamografia feita há até um ano, como orienta a FEBRASGO.
- Sangramento anormal investigado antes de começar, com ultrassom transvaginal e, muitas vezes, biópsia.
- Glicemia e perfil lipídico, recomendados pela FEBRASGO.
O que não precisa: dosar estradiol ou FSH para escolher a dose; painel hormonal; ultrassom transvaginal de rotina sem sangramento; densitometria para todas; e pesquisa de trombofilia sem trombose em parente próximo.
Quem tem indicação está em quando indicar a reposição hormonal, e o passo a passo, em como iniciar a reposição hormonal.
Durante a reposição: a dose se ajusta pelos sintomas
"Doutor, não vai pedir o estradiol para ver se a dose está certa?" Em geral, não. Em 2025, a Sociedade Britânica de Menopausa lembrou que o estradiol no sangue tem pouca relação com os sintomas, que nenhum valor garante a proteção do osso e que, com comprimido, a medida não ajuda. Se o sintoma persiste, mudar a dose ou a via ajuda mais.
A reposição hormonal na menopausa é ajustada pela melhora dos sintomas e pelos efeitos adversos, não por dosagens de estradiol ou FSH. A diretriz europeia de 2025 considera desnecessários os exames hormonais para diagnosticar e conduzir a menopausa depois dos 45 anos e recomenda reavaliar o tratamento em cerca de três meses.
Depois, a revisão costuma ser anual, e a dosagem fica para exceções:
- Insuficiência ovariana prematura: quando os sintomas persistem, o osso não responde ou surgem efeitos adversos.
- Implante de estradiol: embora ainda contraindicado pelas diretrizes médicas, em casos específicos e selecionados pode ser uma via possível de reposição hormonal, com dose controlada, acompanhamento dos níveis hormonais e progesterona em quem tem útero.
- Testosterona, quando indicada: dosagem antes, de 3 a 6 semanas depois do início e a cada seis meses.
Sangramento inesperado pede avaliação; veja sangramento na reposição hormonal e o guia completo da menopausa.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Existe exame de sangue que confirma a menopausa?
Depois dos 45 anos, com ciclos irregulares ou 12 meses sem menstruar e sintomas típicos, não é preciso: o diagnóstico é clínico. O FSH oscila: um valor normal não descarta e um alto isolado não confirma. O exame ajuda antes dos 40 anos, entre 40 e 45 com dúvida e após a retirada só do útero.
- Qual é o valor do FSH na menopausa?
Nenhum número, sozinho, fecha o diagnóstico. Valores acima de 25 UI/L sugerem a transição, mas, na perimenopausa, o FSH pode subir num mês e normalizar no seguinte, e a pílula combinada o mantém baixo. Antes dos 40 anos, FSH acima de 25 UI/L com quatro meses de ciclos falhando sugere insuficiência ovariana prematura.
- Estradiol baixo significa que preciso de reposição hormonal?
Não. Depois da menopausa, o estradiol baixo é esperado em todas as mulheres e não define quem precisa de tratamento. A indicação vem dos sintomas, como fogachos, suores noturnos e secura vaginal, ou da proteção do osso em situações específicas. Na perimenopausa, um estradiol baixo hoje pode estar alto semanas depois.
- O teste de menopausa de farmácia funciona?
Ele detecta FSH na urina acima de 25 mUI/mL e acerta essa medida em cerca de 9 de cada 10 vezes, segundo a FDA americana. Mas FSH alto não é diagnóstico: o hormônio oscila, e o negativo não descarta a transição. Como ainda pode haver ovulação, o teste não serve para decidir parar o anticoncepcional.
- Quais exames a mulher deve fazer na menopausa?
Os que avaliam riscos que mudam nessa fase: pressão, cintura, perfil lipídico, glicemia e hemoglobina glicada, TSH quando indicado, creatinina e risco cardiovascular calculado. Somam-se a densitometria a partir dos 65 anos, ou antes com fator de risco, e o rastreamento de mama e do colo do útero, com o ginecologista.
- Quais exames fazer antes de começar a reposição hormonal?
Mais importante que exames é a história: câncer de mama, trombose, infarto, AVC, enxaqueca com aura e doença do fígado. Somam-se pressão, risco cardiovascular, glicemia, perfil lipídico, mamografia feita há até um ano e investigação de qualquer sangramento anormal. Não é preciso dosar estradiol ou FSH para escolher a dose.
- Quem faz reposição hormonal precisa dosar hormônios para ajustar a dose?
Em geral, não. O estradiol no sangue tem pouca relação com os sintomas e, com comprimido, a medida não ajuda. O ajuste segue a melhora dos sintomas e os efeitos adversos, com reavaliação em cerca de três meses. As exceções são a insuficiência ovariana prematura, o implante de estradiol e o uso de testosterona.
- Com que idade fazer densitometria na menopausa?
Para todas as mulheres a partir dos 65 anos. Antes disso, na pós-menopausa, quando há fator de risco: menopausa antes dos 45 anos, baixo peso, fratura por trauma leve, fratura de quadril nos pais, tabagismo, excesso de álcool ou corticoide prolongado. Em geral, não se repete antes de um a dois anos.
Faça o check-up certo com orientação individual
Se você não sabe quais exames importam na sua fase, vale uma avaliação completa. Veja também como funciona o cuidado da menopausa.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
- Lumsden MA, Dekkers OM, Faubion SS, et al. European Society of Endocrinology clinical practice guideline for evaluation and management of menopause and the perimenopause. Eur J Endocrinol. 2025;193(4):G49-G81. doi:10.1093/ejendo/lvaf206.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Menopause: identification and management. NICE guideline NG23. London: NICE; 2015 (atualizada em 2024).
- Baccaro LF, Paiva LHSC, Nasser EJ, et al. Propedêutica mínima no climatério. Febrasgo Position Statement nº 5. Femina. 2022;50(5):263-271.
- Panay N, Anderson RA, Bennie A, et al. Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency. Hum Reprod Open. 2024;2024(4):hoae065. doi:10.1093/hropen/hoae065.
- Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.
- Matthews KA, Crawford SL, Chae CU, et al. Are changes in cardiovascular disease risk factors in midlife women due to chronological aging or to the menopausal transition? J Am Coll Cardiol. 2009;54(25):2366-2373. doi:10.1016/j.jacc.2009.10.009.
- British Menopause Society. Tool for clinicians: measurement of serum estradiol in the menopause transition. British Menopause Society; 2025 (julho).
- Moreira CA, Ferreira CEDS, Madeira M, et al. Reference values of 25-hydroxyvitamin D revisited: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM) and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine (SBPC/ML). Arch Endocrinol Metab. 2020;64(4):462-478. doi:10.20945/2359-3997000000258.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
