Exames na reposição de testosterona: o que pedir e quando (cronograma)
Exames para quem faz reposição de testosterona: o calendário completo
Resumo rápido
- Antes de começar: duas testosteronas pela manhã, LH, FSH, hematócrito, PSA conforme a idade, apneia, filhos e, se indicada, densitometria.
- Depois, exames aos 3, 6 e 12 meses e, então, uma vez por ano.
- Gel: colher de 2 a 8 horas após a aplicação; cipionato, no meio do intervalo; undecilato, antes da próxima dose.
- Hematócrito acima de 54% pede ajuste ou pausa; PSA que sobe mais de 1,4 ng/mL no primeiro ano ou passa de 4,0 ng/mL leva ao urologista.
- Estradiol não é exame de rotina: entra com queixa na mama.
Imagine um homem de 52 anos com hipogonadismo confirmado, em reposição com cipionato de testosterona. Ele colhe o sangue dois dias depois da injeção, vê testosterona de 1.150 ng/dL e se assusta; o hematócrito, ninguém pediu. Quais são os exames na reposição de testosterona, e quando fazer cada um?
Veja que o problema não é o remédio, é o calendário: exame no dia errado engana, e o que falta deixa passar o que importa. Indicação e formas de tratamento estão no guia de reposição de testosterona.
O que Você Precisa Saber
O acompanhamento faz parte do tratamento. Sem exames, não se sabe se a dose está certa nem se o sangue ficou espesso demais.
A hora da coleta vale tanto quanto o exame. No pico da injeção, a testosterona parece alta; no fim do intervalo, baixa.
Hematócrito e PSA são os exames de segurança. Um vigia o sangue; o outro, a próstata.
Mais exames não é mais segurança. Estradiol de rotina gera susto, não proteção.
Antes de começar: os exames da largada
Costumo comparar com a revisão de um carro novo: antes de rodar, confere-se tudo; no começo, as revisões são próximas; depois, anuais. Na largada, pela Endocrine Society (2018) e pelas associações americana (AUA) e europeia (EAU) de urologia:
- Testosterona total em duas manhãs, entre 7h e 10h, em jejum, como no exame de testosterona.
- LH e FSH, que mostram se o problema está no testículo ou na hipófise.
- Prolactina, com LH e FSH baixos ou normais; a Endocrine Society soma a saturação de transferrina, que rastreia excesso de ferro.
- Hematócrito. Acima de 50%, a AUA manda adiar e investigar; a EAU pede cautela já entre 48% e 50%.
- PSA e toque retal: pela Endocrine Society, de 55 a 69 anos e de 40 a 69 com risco aumentado, por decisão compartilhada; pela AUA, PSA acima dos 40. Acima de 4 ng/mL, ou de 3 com risco aumentado, ou nódulo ao toque: urologista antes.
- Apneia do sono. Apneia grave sem tratamento contraindica a reposição pela Endocrine Society.
- Filhos. Quem os quer faz o espermograma antes da reposição: a testosterona de fora diminui os espermatozoides.
- Coração. Infarto ou AVC nos últimos seis meses adiam o início; a EAU pede checar trombose venosa na família.
- Densitometria, antes dos 70 anos com hipogonadismo confirmado; veja densitometria no homem.
porcentagem do sangue ocupada pelos glóbulos vermelhos. A testosterona estimula a produção deles; acima de certo ponto, o sangue fica espesso.
O cronograma: exames aos 3, 6 e 12 meses, depois anuais
É o calendário do guia; a tabela orienta, não substitui a avaliação.
| Momento | Exames | O que se decide |
|---|---|---|
| Antes de começar | Os da largada, acima | Se há indicação e segurança |
| 3 meses | Testosterona na hora certa da forma, hematócrito, PSA, sintomas, pressão e peso | Primeiro ajuste de dose |
| 6 meses | O mesmo conjunto | Se a dose está na faixa e os sintomas melhoraram |
| 12 meses | O mesmo, mais avaliação da próstata; densitometria, se indicada | Se o tratamento continua |
| Todo ano | Testosterona, hematócrito, sintomas, pressão e peso; PSA conforme o rastreio; lipídios e glicose | Manter, ajustar ou suspender |
Pela Endocrine Society (2018), a testosterona se mede de 3 a 6 meses após o início, e o hematócrito, antes, de 3 a 6 meses depois e, então, todo ano. A diretriz europeia de urologia mede os dois aos 3, 6 e 12 meses e, depois, anualmente.
Não existe equilíbrio, existe prioridade: no primeiro ano, hematócrito e PSA vêm antes do ajuste fino. E, se após seis meses na faixa-alvo nada melhorou, a testosterona provavelmente não era a causa.
Quando dosar a testosterona na reposição: a hora certa em cada forma
A meta é o meio da faixa normal, pela Endocrine Society; na prática, uso em geral de 450 a 700 ng/dL, como no guia. O que muda é a hora da coleta:
| Forma de testosterona | Quando colher | Cuidado |
|---|---|---|
| Gel | De 2 a 8 horas após a aplicação; a EAU prefere de 2 a 4 horas | Punção longe da pele tratada, para não dar falso alto |
| Cipionato de testosterona (Deposteron) e ésteres de ação curta (Durateston) | No meio do intervalo entre as injeções | Logo após a dose, o pico engana |
| Undecilato (undecanoato) de testosterona (Nebido) | Logo antes da próxima dose | Pela EAU, esse nível mais baixo orienta o intervalo |
Com gel, proteja quem mora junto; veja gel de testosterona e transferência. Chips de testosterona em dose alta e fórmulas manipuladas sem padronização de dose fogem desse calendário: sem dose previsível, não há hora certa de coleta.
Hematócrito: o exame que mais muda a dose
É o efeito adverso mais comum. Acima de 54%, a Endocrine Society manda suspender até baixar, investigar apneia e falta de oxigênio e retomar com dose menor; a EAU, ajustar ou suspender, com sangria se necessário, considerando o gel na volta.
Na prática, reduzo a dose, mudo o intervalo ou troco para o gel; às vezes, suspendo até normalizar. Injeções, doses altas, idade, cigarro, apneia e altitude elevam mais; veja testosterona e hematócrito alto.
PSA na reposição de testosterona: quando ir ao urologista
antígeno prostático específico, proteína da próstata. Não mede testosterona; sobe com o crescimento da próstata, inflamação e câncer.
Pela Endocrine Society, quem escolheu acompanhar a próstata repete PSA e toque de 3 a 12 meses após o início e, depois, segue o rastreio para a idade; o calendário acima cabe nessa janela.
Pela Endocrine Society (2018), o homem em reposição de testosterona deve ser avaliado pelo urologista se o PSA subir mais de 1,4 ng/mL em relação ao valor inicial nos primeiros 12 meses, se um PSA acima de 4,0 ng/mL for confirmado, se o toque retal mostrar alteração ou se os sintomas urinários piorarem muito.
Perceba que pesam o valor e quanto subiu: sem o PSA de antes da primeira dose, não há comparação. Detalho em PSA e reposição de testosterona.
Estradiol, metabolismo e osso: só com indicação
Estradiol. A AUA o pede antes da reposição em quem tem queixa na mama; a Endocrine Society e a EAU não o incluem no acompanhamento. Se vier alto em quem repõe, revejo dose e hora da coleta, sem anastrozol de rotina; veja estradiol no homem.
Lipídios, glicose e pressão. Para a EAU, é razoável dosar lipídios e glicose antes e ao menos uma vez por ano, e medir pressão, peso e cintura. Pressão que sobe e não cede pede rever a dose; se o valor do consultório deixa dúvida, veja a MAPA de 24 horas.
Densitometria. Pela Endocrine Society, repete-se após 1 a 2 anos de reposição em quem tem osteoporose.
Sintomas que não esperam o próximo exame
No estudo TRAVERSE, de 2023, com 5.246 homens de 45 a 80 anos, testosterona baixa e doença cardiovascular ou risco alto, o gel de testosterona não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular (7,0% contra 7,3% com placebo). Mas fibrilação atrial (3,5% contra 2,4%), embolia pulmonar (0,9% contra 0,5%) e lesão renal aguda (2,3% contra 1,5%) foram mais frequentes.
Procure atendimento, sem esperar os exames, com:
- palpitação ou coração disparado e irregular;
- falta de ar súbita ou dor no peito ao respirar;
- perna inchada, dolorida e quente de um lado só;
- fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade para falar.
Ronco novo, sonolência forte, piora para urinar ou mama dolorida pedem avaliação em breve. Inchaço leve nas primeiras semanas é comum. Aprofundo em reposição de testosterona e coração.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Quais exames fazer antes de começar a reposição de testosterona?
Testosterona total em duas manhãs, entre 7h e 10h e em jejum, LH, FSH e hematócrito. PSA e toque retal entram conforme a idade e o risco, por decisão compartilhada; prolactina, com LH e FSH baixos ou normais. Somam-se avaliação de apneia, conversa sobre filhos e, quando indicados, espermograma e densitometria.
- De quanto em quanto tempo fazer exames na reposição de testosterona?
Aos 3, 6 e 12 meses depois do início e, então, uma vez por ano. Em cada etapa entram testosterona, hematócrito, sintomas, pressão e peso. O PSA segue esse calendário no primeiro ano e, depois, o rastreio para a idade e o risco. Lipídios e glicose, ao menos uma vez por ano.
- Quando colher a testosterona de quem usa gel ou injeção?
Com gel, de 2 a 8 horas após a aplicação, com a punção longe da pele tratada; a diretriz europeia prefere de 2 a 4 horas. Com cipionato ou ésteres de ação curta, no meio do intervalo. Com undecilato, logo antes da próxima dose. Colher no dia seguinte à injeção mostra o pico e engana.
- Hematócrito alto com testosterona: qual o limite e o que fazer?
Antes de começar, acima de 50%, a diretriz americana de urologia manda adiar e investigar. Durante a reposição, acima de 54%, a dose é ajustada ou a testosterona pausada até o hematócrito baixar, com investigação de apneia e cigarro; depois, retoma-se com dose menor ou com gel. A sangria fica para casos selecionados.
- Quem usa testosterona pode doar sangue?
A doação segue os critérios do serviço de hemoterapia, que avalia cada caso. O que não funciona é usá-la como tratamento: doar não substitui a sangria terapêutica, quando indicada, nem torna segura uma dose inadequada, e retiradas repetidas podem esgotar o ferro. Hematócrito alto pede conversa com quem prescreve, antes da próxima dose.
- PSA e testosterona são a mesma coisa? Precisa de jejum?
Não. A testosterona é o hormônio; o PSA, uma proteína da próstata, usada para vigiá-la. Costumam ser pedidos juntos. A testosterona do diagnóstico é colhida entre 7h e 10h, em jejum, em duas manhãs, e o PSA pode ir na mesma coleta. Durante a reposição, a testosterona segue a hora certa de cada forma.
- O PSA subiu com a testosterona. Quando procurar o urologista?
Pela Endocrine Society, quando sobe mais de 1,4 ng/mL em relação ao valor de antes do tratamento nos primeiros 12 meses, quando um PSA acima de 4,0 ng/mL é confirmado, quando o toque retal mostra alteração ou quando os sintomas urinários pioram muito. Um resultado alterado se confirma antes de qualquer decisão.
- Precisa dosar estradiol na reposição de testosterona?
De rotina, não. A Endocrine Society e a diretriz europeia de urologia não incluem o estradiol no acompanhamento; a americana o pede antes de começar em quem tem queixa na mama. Estradiol alto em quem repõe pede rever a dose e a hora da coleta. Anastrozol não é rotina: estradiol baixo demais tira osso e libido.
Acompanhe a sua reposição com orientação individual
Vale montar o calendário de exames com quem acompanha o seu tratamento do hipogonadismo.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229.
- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115. Validade confirmada pela AUA em 2024.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism. Arnhem: EAU Guidelines Office; edição atual, consultada em novembro de 2026.
- Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med. 2023;389(2):107-117. doi:10.1056/NEJMoa2215025.
- Watts NB, Adler RA, Bilezikian JP, et al. Osteoporosis in men: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2012;97(6):1802-1822. doi:10.1210/jc.2011-3045.
- Bhasin S, Cunningham GR, Hayes FJ, et al. Testosterone Therapy in Men with Androgen Deficiency Syndromes: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2010;95(6):2536-2559. doi:10.1210/jc.2009-2354.
