Iodo radioativo na tireoide: quando é indicado no hipertireoidismo e o que esperar
Iodo radioativo para hipertireoidismo: preparo, cuidados, efeitos e gravidez
Resumo rápido
- O iodo radioativo é uma cápsula que a tireoide capta; a radiação destrói parte das células que fabricam hormônio demais.
- Serve na doença de Graves e nos nódulos que produzem hormônio; não se usa na gravidez nem na amamentação.
- Na Graves, o hipotireoidismo depois do iodo é comum e, muitas vezes, é o objetivo.
- Os cuidados com a radiação em casa duram dias; com crianças e gestantes, mais tempo.
- A mulher só deve engravidar depois de 4 a 6 meses ou mais, com os hormônios normais.
Imagine uma mulher de 52 anos com doença de Graves que voltou meses depois de parar o metimazol (Tapazol). Na consulta, o iodo radioativo para a tireoide aparece como opção, e as dúvidas se acumulam: vou ficar radioativa? Posso abraçar o neto? Vou engordar? O hipotireoidismo é para sempre?
Perceba que cada pergunta tem resposta nas diretrizes.
O que Você Precisa Saber
É tratamento, não exame. O objetivo é destruir parte da glândula, de forma definitiva.
A causa e os olhos decidem. Graves e nódulos quentes, sim; gestação e doença ocular ativa importante, não.
O hipotireoidismo faz parte do plano. Ele se trata com um comprimido por dia e é mais previsível que o hipertireoidismo.
Os cuidados em casa são temporários. Distância, cama separada e higiene, por prazos que dependem da dose.
Como o iodo radioativo age na tireoide
Costumo explicar com uma isca. A tireoide puxa iodo do sangue para fabricar hormônio. O iodo radioativo é uma isca que ela engole como se fosse o da comida; as células que mais trabalham puxam mais e são destruídas ao longo de semanas a meses.
forma radioativa do iodo, tomada por via oral, que a tireoide capta como capta o iodo da alimentação.
No câncer de tireoide, é outra situação, com outro objetivo e outra dose.
Para quem o iodo radioativo é indicado e para quem não é
Na tireoidite, a glândula só libera o hormônio estocado, e o iodo não ajuda; veja Graves ou tireoidite.
Pela Associação Americana de Tireoide (ATA, 2016) e pela Associação Europeia de Tireoide (ETA, 2018), o iodo é opção:
- na Graves que voltou depois do metimazol, com efeito colateral do remédio ou por preferência;
- no bócio multinodular tóxico e no adenoma tóxico, ao lado da cirurgia (veja nódulos de tireoide);
- com risco cirúrgico alto.
Fica de fora na gravidez, na amamentação, com câncer de tireoide junto ou suspeito e em quem não consegue seguir os cuidados com a radiação. Gravidez planejada para menos de 6 meses favorece a cirurgia, pela ATA.
Os olhos. Pela diretriz europeia de orbitopatia (EUGOGO, 2021), o iodo pode fazer surgir ou piorar a doença dos olhos da Graves; num grande ensaio, ela progrediu em 15% dos tratados. Fumantes e quem tem TRAb alto correm mais risco. Veja Graves e os olhos.
Pela diretriz europeia de 2021, na orbitopatia de Graves ativa moderada a grave, a tireoide é tratada com metimazol até o fim do tratamento dos olhos; na leve e ativa, preferem-se metimazol ou cirurgia e, se o iodo for escolhido, corticoide oral, também indicado para fumantes.
Iodo radioativo, metimazol ou cirurgia na Graves
| Metimazol (Tapazol) | Iodo radioativo | Cirurgia | |
|---|---|---|---|
| Como age | Diminui a fabricação do hormônio | Destrói parte das células da tireoide | Retira a tireoide inteira |
| Tempo até o efeito | Semanas; reavaliação em 2 a 6 semanas | Maioria melhora em 4 a 8 semanas | Logo após a operação, com os hormônios já controlados |
| Volta do hipertireoidismo | 52,7% após parar | 15% | 10% nos estudos que incluíram retirada parcial; rara com a retirada total |
| Hipotireoidismo | Não é o objetivo; a dose segue os exames | Comum; muitas vezes, a meta | Certo; reposição logo após |
| Costuma ser favorecido | Boa chance de remissão; doença ativa importante dos olhos | Recidiva, efeitos do remédio, risco cirúrgico alto | Bócio grande, nódulo suspeito, doença importante dos olhos, gravidez em menos de 6 meses |
Fontes: ATA 2016; ETA 2018 (volta do hipertireoidismo).
Não existe equilíbrio, existe prioridade: causa, gravidez, olhos e preferência definem o caminho; veja o guia do hipertireoidismo e metimazol: para que serve.
Preparo e dia do tratamento
Metimazol. Pausa antes do iodo, para não diminuir o efeito: 2 a 3 dias pela ATA, 4 a 7 dias pelo consenso da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM, 2013) e cerca de 1 semana antes e depois pela ETA. Quem define é o médico.
Betabloqueador. Como o iodo pode aumentar o hormônio por pouco tempo, a ATA sugere considerá-lo em idosos e em quem tem outras doenças.
Iodo. Pela ATA, não há dieta especial: evitam-se suplementos com iodo e algas por 7 dias ou mais; dieta pobre em iodo, só se a captação for baixa. Contraste iodado e amiodarona atrapalham; veja cintilografia de tireoide.
Gravidez e amamentação. Pela ATA, teste de gravidez em até 48 horas antes; quem amamenta para pelo menos 6 semanas antes e não volta a amamentar aquele bebê.
A dose. Vem em cápsula, fixa ou calculada pelo tamanho da tireoide e pela captação; na Graves, a média da ATA é de 370 a 555 MBq (10 a 15 mCi).
Cuidados com a radiação depois do iodo
Pela norma de medicina nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN NN 3.05, de 2013), só doses acima de 1.850 MBq exigem internação; as do hipertireoidismo ficam, em geral, abaixo. A norma obriga o serviço a orientar a pessoa e o acompanhante, por escrito, com atenção a grávidas e crianças. Exemplos da ATA (2011), supondo captação de 50%:
| Cuidado | 370 MBq (10 mCi) | 555 MBq (15 mCi) |
|---|---|---|
| Dormir em cama separada de outro adulto, a cerca de 2 metros | 3 dias | 6 dias |
| Dormir longe de gestante, bebê ou criança | 15 dias | 18 dias |
Os prazos de cada pessoa saem da dose aplicada e vêm por escrito do serviço de medicina nuclear. A ATA orienta ainda:
- sentar para urinar, dar descarga e lavar bem as mãos;
- não dividir talheres, copos e escova de dentes;
- evitar transporte público no período de restrição.
O que esperar nos meses seguintes
Pela ATA, a maioria melhora dos sintomas e dos exames em 4 a 8 semanas. O hipotireoidismo pode começar a partir de 4 semanas: com doses pensadas para isso, atinge cerca de 40% em 8 semanas e mais de 80% em 16.
falta de hormônio quando o iodo destrói tireoide suficiente; na Graves, sinal de controle definitivo.
Pela ATA, os primeiros exames vêm em 1 a 2 meses e, depois, a cada 4 a 6 semanas por 6 meses ou até a levotiroxina se estabilizar; no início, quem guia é o T4 livre, porque o TSH demora a subir. Depois, vale o tratamento do hipotireoidismo. Sem hipotireoidismo, os exames continuam: pela ETA, ele surge em 3% a 5% ao ano após o primeiro ano.
Segunda dose. O consenso brasileiro estima falha em cerca de 20% na Graves; pela ATA, hipertireoidismo que persiste 6 meses depois pede nova dose. No adenoma tóxico, a segunda dose é rara.
Câncer, fertilidade e gravidez: o que os estudos mostram
Câncer. A ETA não vê evidência de mais câncer de tireoide nem de mais mortes por câncer; uma metanálise citada pela ATA não achou aumento do risco geral. Um estudo americano de 2019, com quase 19 mil pessoas tratadas entre 1946 e 1964, estimou de 19 a 32 mortes a mais por câncer sólido ao longo da vida a cada 1.000 tratadas aos 40 anos com doses típicas; o aumento é modesto, e a coorte, antiga.
Fertilidade. Pela ATA, com os hormônios normais, não há sinal de fertilidade menor nem de mais malformações nos filhos.
Gravidez depois. Pela ATA (2016), a mulher espera de 4 a 6 meses ou mais, com os hormônios estáveis, e o homem, 3 a 4 meses; a ETA pede 6 meses para ambos. Na gestação, nunca: pela ATA de 2026, o iodo atravessa a placenta e pode destruir a tireoide do bebê; veja TSH na gravidez.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Iodo radioativo na tireoide: o que é e como é feito?
É um tratamento do hipertireoidismo: engole-se uma cápsula de iodo-131, que a tireoide capta como capta o iodo da comida, e a radiação destrói parte das células que fabricam hormônio demais. Antes, pausa-se o metimazol (Tapazol) e faz-se teste de gravidez; depois, vêm alguns dias de cuidados com a radiação.
- O iodo radioativo é perigoso? Pode causar câncer?
A diretriz europeia não vê evidência de mais câncer de tireoide nem de mais mortes por câncer após o tratamento. Um estudo americano com pessoas tratadas há décadas estimou um aumento modesto de câncer sólido ao longo da vida. Na Graves, o risco mais imediato é para os olhos, avaliado antes.
- Quanto tempo de isolamento depois do iodo radioativo?
No hipertireoidismo, a dose costuma ficar abaixo do limite que exige internação pela norma da CNEN. Em casa, pelos exemplos da ATA, dorme-se longe de outro adulto por 3 a 6 dias e longe de gestantes e crianças por 15 a 18 dias, conforme a dose. Os seus prazos vêm por escrito.
- Iodoterapia engorda ou emagrece?
O peso que o hipertireoidismo levou tende a voltar quando o hormônio normaliza, com qualquer tratamento. Num estudo observacional inglês com 1.373 pessoas, o iodo somou, em média, 0,6 kg ao ganho frente ao antitireoidiano. Proteína em todas as refeições e treino de força ajudam a recuperar músculo, e não só gordura.
- Iodo radioativo faz cair o cabelo?
As diretrizes de hipertireoidismo que consultei não citam queda de cabelo como efeito do iodo nas doses usadas para essa doença. Nessa fase, porém, os hormônios da tireoide mudam bastante, do excesso para o normal ou para a falta. Se o cabelo cair, leve isso à consulta para checar exames e outras causas.
- Quem tomou iodo radioativo pode engravidar?
Pode, com prazo. Pela diretriz americana de 2016, a mulher espera os hormônios se estabilizarem, em geral 4 a 6 meses ou mais, e o homem, 3 a 4 meses; a europeia pede 6 meses para ambos. A fertilidade não diminui, pela ATA. Quem engravida usando levotiroxina ajusta a dose logo no início.
- Quanto tempo o iodo radioativo demora para fazer efeito?
Pela ATA, a maioria melhora em 4 a 8 semanas e, com doses pensadas para isso, mais de 80% estão em hipotireoidismo em 16 semanas. Os exames começam em 1 a 2 meses e seguem a cada 4 a 6 semanas. Hipertireoidismo que persiste 6 meses depois pede nova dose.
- Depois do iodo radioativo, vou tomar levotiroxina para sempre?
Na Graves, na maioria das vezes, sim: o hipotireoidismo é o resultado esperado, e a levotiroxina faz o papel da tireoide, com exames periódicos. Nos nódulos quentes, o hipotireoidismo é menos previsível e, pelo consenso brasileiro, fica mais frequente com os anos. Por isso, os exames continuam mesmo com tudo normal.
Cuide da sua tireoide com orientação individual
Referências
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