LH e FSH no homem: o que revelam sobre a causa da testosterona baixa
LH baixo, FSH alto ou os dois "zerados": como ler o exame
Resumo rápido
- LH e FSH são as ordens da hipófise ao testículo: o LH pede testosterona; o FSH, espermatozoides.
- Testosterona baixa com LH e FSH altos aponta para o testículo; com LH e FSH baixos ou "normais", para o comando no cérebro.
- LH alto com testosterona normal, FSH alto isolado e LH e FSH "zerados" contam outras histórias.
- Pedem-se com a testosterona, na mesma coleta da manhã, e nunca fecham diagnóstico sozinhos.
- Testosterona de fora diminui LH, FSH e espermatozoides: quem quer ter filhos precisa saber antes.
Dois homens de 30 anos trazem testosterona total de 210 e de 220 ng/dL. O que os separa está em duas linhas que quase ninguém lê: LH e FSH, que no homem comandam o testículo.
No primeiro, LH de 24 e FSH de 38 mUI/mL: a hipófise insistia, e o testículo não respondia. O cariótipo confirmou síndrome de Klinefelter. No segundo, LH e FSH abaixo de 0,2 mUI/mL: ele tinha encerrado um ciclo de anabolizantes três meses antes.
A seguir, explico o que LH e FSH no homem revelam, sempre lidos com sintomas, exame físico e histórico.
O que Você Precisa Saber
LH e FSH são o comando, não a produção. Saem da hipófise, na base do cérebro, e dizem ao testículo quanto trabalhar.
O valor só faz sentido ao lado da testosterona. Com a testosterona baixa, um LH "normal" deveria estar alto.
Eles localizam o problema, não dão o diagnóstico. A causa vem da história e de outros exames.
Testosterona de fora desliga o comando. Gel, injeção ou anabolizante diminuem LH e FSH e a produção de espermatozoides.
O que são LH e FSH: o gerente e a fábrica
Costumo explicar com uma fábrica. O hipotálamo é a diretoria; a hipófise, o gerente, que dá duas ordens, LH e FSH; o testículo, a fábrica, com duas linhas de produção.
hormônio luteinizante e hormônio folículo-estimulante, da hipófise. No homem, o LH faz as células de Leydig fabricarem testosterona; o FSH estimula as células de Sertoli, que sustentam a formação dos espermatozoides.
Quando a testosterona sobe, o gerente reduz as ordens; quando cai, as aumenta, como um termostato. Perceba: se a fábrica quebra, LH e FSH sobem; se o gerente se cala, a fábrica para, mesmo inteira, e LH e FSH ficam baixos ou "normais".
no primário, a falha está no testículo; no secundário, está no comando, na hipófise ou no hipotálamo.
Como pedir: junto com a testosterona, na mesma manhã
LH e FSH não se pedem soltos nem no check-up. A Endocrine Society e a diretriz europeia recomendam dosá-los no homem com testosterona baixa confirmada, para separar testículo de comando. Peço os dois na coleta que confirma a testosterona, entre 7h e 10h, em jejum, como explico no exame de testosterona e em testosterona total, livre e SHBG.
Num estudo com homens saudáveis, o LH subiu em pulsos, cerca de uma vez a cada hora e meia, com picos, em média, 68% acima do vale. Uma dosagem única estimou a média com margem de erro de cerca de 50%.
Veja que um LH perto do limite merece repetição. A biotina é suspensa 72 horas antes; mUI/mL e UI/L são a mesma unidade.
Como interpretar: os padrões do laudo
| Padrão no laudo | Onde está o problema | Causas frequentes | Próximo passo |
|---|---|---|---|
| Testosterona baixa, LH e FSH altos | Testículo (primário) | Klinefelter, orquite, quimioterapia, radioterapia, trauma | Exame dos testículos, cariótipo, espermograma |
| Testosterona baixa, LH e FSH baixos ou "normais" | Hipófise ou hipotálamo (secundário) | Obesidade, diabetes, opioides, anabolizantes, prolactina alta, tumor, hemocromatose | Prolactina, ferritina e saturação de transferrina; ressonância, se indicada |
| Testosterona normal, LH alto | Testículo sob pressão (compensado) | Idade, doenças crônicas | Repetir e acompanhar |
| FSH alto, LH e testosterona normais | Produção de espermatozoides | Lesão da linha de espermatozoides, varicocele, causas genéticas | Espermograma |
| LH e FSH muito baixos | Hormônio de fora | Reposição ou anabolizantes | Perguntar sobre o uso |
No estudo europeu EMAS, com homens de 40 a 79 anos, 11,8% tinham testosterona baixa (abaixo de 10,5 nmol/L, cerca de 300 ng/dL) com LH baixo ou normal; 2%, testosterona baixa com LH alto (acima de 9,4 UI/L); e 9,5%, testosterona normal com LH alto. A obesidade se associou a risco quase nove vezes maior do padrão secundário.
LH e FSH altos com testosterona baixa: o testículo
As causas principais:
- Síndrome de Klinefelter: um cromossomo X a mais (47,XXY), em 1 a 2 de cada mil homens, com FSH muito alto e testículos pequenos; pela Academia Europeia de Andrologia, de metade a três quartos nunca são diagnosticados. Veja Klinefelter no adulto.
- Orquite, como a da caxumba.
- Quimioterapia, radioterapia, trauma ou torção do testículo.
A varicocele entra sobretudo na avaliação dos espermatozoides: a cirurgia é considerada em quem tenta ter filhos, tem varicocele palpável e espermograma alterado.
Próximos passos. Pela Endocrine Society, cariótipo no primário sem causa clara, sobretudo com testículos abaixo de 6 mL. Com desejo de filhos, espermograma antes de qualquer testosterona: no Klinefelter, parte dos homens ainda tem espermatozoides no testículo. Mais em causas de testosterona baixa.
LH e FSH baixos ou "normais": o comando falhou
Se o LH fica baixo ou "normal" com a testosterona baixa, o recado não sai da hipófise ou do hipotálamo. É o padrão mais comum.
Causas funcionais. Obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica freiam o eixo sem lesá-lo; pela diretriz europeia, perder peso é a primeira abordagem.
Outras causas. Corticoides, anabolizantes, inclusive meses após parar, opioides e prolactina alta, por remédio ou prolactinoma; mais raramente, outros tumores da hipófise e hemocromatose, o acúmulo de ferro.
Próximos passos. Prolactina sempre que LH e FSH não estão altos; ferritina e saturação de transferrina; outros hormônios da hipófise, se o quadro sugerir.
Pela Endocrine Society, a ressonância da hipófise está indicada no hipogonadismo secundário com testosterona total abaixo de 150 ng/dL (5,2 nmol/L), prolactina persistentemente alta, falta de vários hormônios da hipófise ou sinais de tumor, como dor de cabeça e alteração da visão.
Na obesidade, não existe equilíbrio, existe prioridade: o peso vem antes do hormônio, como mostro em tratamento do hipogonadismo.
LH alto com testosterona normal, FSH alto isolado e LH e FSH "zerados"
LH alto com testosterona normal. É o hipogonadismo compensado: o testículo precisa de mais estímulo para entregar o mesmo. Mais comum com a idade, tem significado clínico incerto pela diretriz europeia. Acompanho; não pede testosterona.
FSH alto com LH e testosterona normais. Pela diretriz americana de infertilidade masculina, FSH acima de cerca de 7,6 UI/L, mesmo dentro da faixa, sugere alteração na produção de espermatozoides. Segue-se o espermograma; sem espermatozoides ou com contagem muito baixa, cariótipo e pesquisa de microdeleções do cromossomo Y.
LH e FSH baixos por anabolizante. Com os dois quase "zerados", pergunto sobre hormônio de fora, sem julgamento. Testosterona alta indica testosterona em uso; baixa sugere anabolizante que não é testosterona. SHBG e HDL muito baixos e hematócrito alto reforçam a suspeita.
Reposição, anabolizantes e fertilidade
A testosterona de fora avisa o gerente de que já basta: LH e FSH caem, e a produção de espermatozoides pode zerar, mesmo com a testosterona do sangue normal ou alta. Por isso, a Endocrine Society e as diretrizes de urologia, americana e europeia, desaconselham a reposição em quem planeja ter filhos.
Num estudo australiano, homens que receberam injeções de undecilato de testosterona por dois anos tinham LH e FSH suprimidos ao parar, e a recuperação foi lenta, ao longo de cerca de 15 meses após a última dose. Em outro estudo, com ex-usuários de anabolizantes, o LH voltou em média em 11 meses, e a produção de espermatozoides, em 14; o volume dos testículos não se recuperou por completo.
Alternativas para quem quer ter filhos. No hipogonadismo secundário, o padrão da diretriz europeia é a gonadotrofina coriônica humana (hCG), injeção que imita o LH, com FSH. O clomifeno, comprimido que aumenta LH e FSH, é usado no homem fora da bula, que no Brasil prevê só a infertilidade feminina; pela Endocrine Society, eficácia e segurança não foram demonstradas em ensaios randomizados. No primário, esses remédios não restauram a fertilidade. Nada de "terapia pós-ciclo" por conta própria; veja o guia de reposição de testosterona.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Para que serve o exame de LH e FSH no homem?
Para descobrir onde está a causa de uma testosterona baixa confirmada: altos, apontam para o testículo; baixos ou normais, para a hipófise ou o hipotálamo. O FSH também ajuda a avaliar a produção de espermatozoides na infertilidade. Não é exame de check-up, e sem a testosterona da mesma coleta não há como interpretá-lo.
- Qual o valor normal de LH e FSH no homem?
A faixa depende do laboratório; mUI/mL e UI/L são equivalentes. O estudo EMAS considerou alto o LH acima de 9,4 UI/L. Pela diretriz americana de infertilidade, FSH acima de cerca de 7,6 UI/L já sugere alteração na produção de espermatozoides. O número é sempre lido com a testosterona e os sintomas.
- LH alto e testosterona baixa: o que significa?
Que a hipófise pede mais e o testículo não consegue entregar: é o hipogonadismo primário. Síndrome de Klinefelter, orquite, quimioterapia, radioterapia e trauma estão entre as causas. A investigação inclui exame dos testículos, cariótipo quando a causa não é clara e espermograma se houver desejo de filhos. A reposição costuma ser contínua.
- LH e FSH baixos no homem: o que significa?
Com testosterona baixa, indica que o comando, na hipófise ou no hipotálamo, não está estimulando o testículo. As causas mais comuns são obesidade, diabetes tipo 2, opioides, corticoides e anabolizantes; mais raramente, prolactinoma, outros tumores da hipófise e hemocromatose. Pedem-se prolactina, ferritina e saturação de transferrina; a ressonância, conforme critérios.
- FSH alto no homem: o que significa e ainda dá para ter filhos?
FSH alto, com LH e testosterona normais, indica produção de espermatozoides prejudicada, que a hipófise tenta compensar. Não é sinônimo de esterilidade. O espermograma mostra o tamanho do problema; com contagem muito baixa ou ausente, entram cariótipo e pesquisa de microdeleções do cromossomo Y. Um urologista que trata infertilidade define as opções.
- LH e FSH zerados no homem: o que significa?
Em geral, hormônio de fora. Com testosterona alta, testosterona em uso, por reposição ou estética; com testosterona baixa, outro anabolizante ou a fase logo após parar. Mais raramente, doença da hipófise. Em ex-usuários de anabolizantes, o LH levou em média 11 meses para voltar. Conte o uso ao médico: muda toda a investigação.
- Como aumentar LH e FSH no homem?
Tratando a causa: perder peso, tratar a apneia, rever opioides e corticoides com quem os prescreveu, parar anabolizantes com acompanhamento e tratar a prolactina alta. Com desejo de filhos, em casos selecionados, entram hCG, FSH ou clomifeno, este fora da bula no homem. Se o problema está no testículo, LH e FSH já estão altos.
- LH baixo no homem dá sintomas?
O LH baixo em si, não; os sintomas vêm da testosterona que cai: menos libido, menos ereções ao acordar, disfunção erétil, cansaço. Com o FSH baixo, a produção de espermatozoides diminui. LH baixo com testosterona normal ou alta levanta a suspeita de hormônio de fora. O diagnóstico exige sintomas e duas coletas matinais.
Entenda o seu exame com orientação individual
Se o LH ou o FSH veio fora da faixa, a leitura começa pela testosterona e pela causa. Para a consulta a distância, veja como se preparar para a teleconsulta.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism. Arnhem: EAU Guidelines Office; edição atual, consultada em outubro de 2026.
- American Urological Association; American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline. Publicada em 2020, emendada em 2024.
- Tajar A, Forti G, O'Neill TW, et al. Characteristics of Secondary, Primary, and Compensated Hypogonadism in Aging Men: Evidence from the European Male Ageing Study. J Clin Endocrinol Metab. 2010;95(4):1810-1818. doi:10.1210/jc.2009-1796.
- Zitzmann M, Aksglaede L, Corona G, et al. European Academy of Andrology guidelines on Klinefelter Syndrome. Endorsing Organization: European Society of Endocrinology. Andrology. 2021;9(1):145-167. doi:10.1111/andr.12909.
- Anawalt BD. Diagnosis and Management of Anabolic Androgenic Steroid Use. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(7):2490-2500. doi:10.1210/jc.2018-01882.
- Shankara-Narayana N, Yu C, Savkovic S, et al. Rate and Extent of Recovery from Reproductive and Cardiac Dysfunction Due to Androgen Abuse in Men. J Clin Endocrinol Metab. 2020;105(6):1827-1839. doi:10.1210/clinem/dgz324.
- Handelsman DJ, Desai R, Conway AJ, et al. Recovery of Male Reproductive Function After Ceasing Prolonged Testosterone Undecanoate Injections. Eur J Endocrinol. 2022;186(3):307-318. doi:10.1530/EJE-21-0608.
- Santen RJ, Bardin CW. Episodic Luteinizing Hormone Secretion in Man: Pulse Analysis, Clinical Interpretation, Physiologic Mechanisms. J Clin Invest. 1973;52:2617-2628.
