Punção de tireoide (PAAF): como é feita e o que o resultado diz
PAAF da tireoide: preparo, dor, riscos e como ler o resultado Bethesda, de I a VI
Resumo rápido
- A punção de tireoide, ou PAAF, retira células do nódulo com agulha fina, guiada por ultrassom, e costuma levar menos de 30 minutos.
- Quem indica é o TI-RADS com o tamanho: a partir de 2,5 cm no TR3, 1,5 cm no TR4 e 1 cm no TR5, depois do TSH.
- Não exige jejum; o ácido acetilsalicílico (AAS) em geral é mantido, e o anticoagulante só muda com orientação médica.
- O desconforto costuma ser leve, e complicações sérias são raras.
- O laudo vem no sistema Bethesda, de I a VI; o II, benigno, é o resultado mais comum.
Imagine que ela tem 58 anos, toma AAS pelo coração e recebeu um pedido de punção de tireoide para um nódulo TI-RADS 4 de 1,8 cm. As primeiras perguntas não são sobre câncer: "Dói? Preciso parar o AAS? Saio de lá com o diagnóstico?"
A resposta curta: dói pouco, o AAS em geral continua, e o laudo chega dias depois, numa de seis categorias que dizem muito, mas não tudo.
A seguir, explico como é a punção, o preparo e o que cada resultado significa. Nenhum laudo decide a conduta sozinho: ele é lido com o ultrassom, o TSH, o exame do pescoço e a sua história.
O que Você Precisa Saber
A punção responde ao que o ultrassom só estima. Costumo explicar assim: o ultrassom fotografa a fachada da casa; a punção abre a porta e olha quem está dentro.
É um procedimento simples. Sem sedação, sem corte e, em muitos serviços, sem anestesia.
O laudo traz risco, não sentença. Cada categoria Bethesda tem um risco estimado de câncer e uma conduta habitual.
Benigno pede acompanhamento, não esquecimento. Nova punção só com motivo; duas benignas no mesmo nódulo dispensam outra.
Quando a punção está indicada e o que fazer antes
Quem indica a punção é o ultrassom: pelo TI-RADS, a partir de 2,5 cm no TR3, 1,5 cm no TR4 e 1 cm no TR5; TR1 e TR2 não são puncionados. O caminho completo está no guia de nódulos de tireoide.
Antes da agulha, peço o TSH (veja como ler o exame de tireoide). Se vier baixo ou no limite inferior, a cintilografia mostra se o nódulo é "quente", produzindo hormônio sozinho: raramente é câncer e, pela diretriz europeia de 2023, não se punciona, salvo se muito suspeito. Gânglio suspeito, radiação na infância e parente com câncer de tireoide, sobretudo o câncer medular, também pesam.
O preparo é pequeno:
- Jejum: não precisa; uma refeição leve evita tontura.
- AAS e clopidogrel: a Sociedade de Radiologia Intervencionista dos Estados Unidos (SIR) considera a punção de tireoide de baixo risco de sangramento e não recomenda suspendê-los.
- Anticoagulantes (varfarina, apixabana, rivaroxabana, dabigatrana): a diretriz europeia aceita a punção com varfarina se o INR, exame da coagulação, estiver abaixo de 3; alguns serviços preferem pausar. Nunca suspenda por conta própria: decide o médico que prescreveu, com o serviço da punção.
- Exames: leve o laudo e as imagens do ultrassom.
Como é feita a punção de tireoide
punção aspirativa por agulha fina. Retira células do nódulo, guiada por ultrassom, para o patologista analisar ao microscópio.
Com a pessoa deitada e o pescoço estendido, o médico localiza o nódulo no ultrassom e introduz uma agulha mais fina que a de coleta de sangue, com movimentos de vaivém de poucos segundos. Em geral, são de duas a seis passadas, em pontos diferentes do nódulo, seguidas de alguns minutos de compressão; tudo costuma levar menos de 30 minutos. Muitos serviços dispensam a anestesia local; outros aplicam um anestésico na pele. Não há sedação.
Numa revisão de 2023, com 23 estudos, a maioria relatou nenhum desconforto ou desconforto leve. Hematoma ou sangramento apareceu em 0% a 6,4% dos pacientes, em geral pequeno; reação vasovagal, a queda de pressão com tontura, e lesão do nervo da voz foram raras. O implante de células do tumor no trajeto da agulha ocorreu em 0,02% a 0,19%.
Depois, a maioria volta às atividades no mesmo dia. Inchaço que piora ou febre pedem contato com o serviço; falta de ar é emergência.
Bethesda de I a VI: o que significa cada resultado
padrão internacional para o laudo da punção de tireoide, revisado em 2023, na 3ª edição. Tem seis categorias, cada uma com um risco estimado de câncer e uma conduta habitual.
Alguns laudos escrevem a categoria em algarismos romanos; outros, de 1 a 6.
| Categoria | O que quer dizer | Risco de câncer: média (faixa) | Conduta habitual |
|---|---|---|---|
| I, não diagnóstico | Material insuficiente | 13% (5% a 20%) | Repetir a punção guiada por ultrassom |
| II, benigno | Nódulo benigno | 4% (2% a 7%) | Acompanhamento clínico e com ultrassom |
| III, atipia de significado indeterminado | Nem benigno nem maligno com segurança | 22% (13% a 30%) | Repetir a punção, teste molecular, cirurgia diagnóstica ou vigilância |
| IV, neoplasia folicular | Padrão que a punção não define | 30% (23% a 34%) | Teste molecular ou retirada do lobo para diagnóstico |
| V, suspeito de malignidade | Sinais de câncer, sem certeza | 74% (67% a 83%) | Teste molecular, se disponível; cirurgia |
| VI, maligno | Câncer | 97% (97% a 100%) | Cirurgia: retirada do lobo ou de quase toda a tireoide |
São médias de grandes séries; cada serviço tem os seus números. O II é o resultado mais comum: de 55% a 74% das punções, pela diretriz europeia. O III tem artigo próprio: Bethesda 3 na tireoide.
No sistema Bethesda de 2023, o risco médio de câncer é de 13% na categoria I (não diagnóstico), 4% na II (benigno), 22% na III (atipia de significado indeterminado), 30% na IV (neoplasia folicular), 74% na V (suspeito de malignidade) e 97% na VI (maligno). A conduta depende da categoria, do ultrassom e da história clínica.
Testes moleculares no Bethesda III e IV
Nos resultados indeterminados, o teste molecular, feito no material da punção, ajuda a separar quem pode acompanhar de quem deve operar. A 3ª edição do Bethesda o inclui como opção nas categorias III, IV e V, quando disponível.
No Brasil, o acesso é limitado. Há um teste por perfil de microRNA desenvolvido aqui; em 2023, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deu parecer preliminar desfavorável a incluir esse tipo de teste no rol de cobertura obrigatória dos planos, por considerar muito baixa a certeza da evidência. Peço quando o resultado pode mudar a conduta, depois de conversar sobre custo e limites.
Quando repetir a punção
Bethesda I. Repete-se a punção guiada por ultrassom, sem esperar três meses: a ATA (2015) e a 3ª edição do Bethesda não veem motivo para adiar, e a nova punção traz material suficiente em até 80% das vezes. Se continuar insuficiente, as opções são acompanhamento próximo, biópsia por agulha grossa ou cirurgia, conforme o ultrassom.
Bethesda II. Acompanha-se com ultrassom. Nova punção entra se:
- o nódulo crescer de forma relevante: 20% em duas medidas, com no mínimo 2 mm, ou mais de 50% no volume;
- surgirem características ou gânglio suspeitos;
- o ultrassom já era muito suspeito: pela ATA, nova punção em até um ano.
Depois de duas punções benignas no mesmo nódulo, a diretriz europeia dispensa nova punção.
O que o resultado da punção não diz
Benigno não é risco zero. Os 4% médios do Bethesda II justificam o acompanhamento.
Bethesda IV não diz se é câncer. Adenoma e carcinoma folicular têm células parecidas; a diferença, a invasão da cápsula ou dos vasos, só aparece na peça operada.
O número não é estágio. Bethesda III é uma categoria do laudo, não câncer em estágio 3.
Não define a cirurgia. Mesmo no VI, tamanho, gânglios e história decidem; no câncer papilífero de até 1 cm, a vigilância ativa pode ser opção. Quem conduz cada etapa está em endocrinologista ou cirurgião.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Punção de tireoide dói? Tem anestesia?
Costuma doer pouco: numa revisão de 23 estudos, a maioria relatou nenhum desconforto ou desconforto leve. A agulha é mais fina que a de coleta de sangue, e não há sedação. Muitos serviços não usam anestesia local; outros aplicam um anestésico na pele. O pescoço pode ficar dolorido por um ou dois dias; compressa fria e analgésico comum costumam bastar.
- Punção de tireoide precisa de preparo? Preciso parar o AAS ou o anticoagulante?
Não precisa de jejum; uma refeição leve evita tontura. O AAS em geral não é suspenso, porque a punção de tireoide tem baixo risco de sangramento. Com anticoagulantes, as condutas variam: a diretriz europeia aceita a punção com varfarina se o INR estiver abaixo de 3, e alguns serviços preferem pausar o remédio. Nunca suspenda por conta própria: quem decide é o médico que prescreveu, com o serviço da punção.
- Depois da punção de tireoide precisa de repouso? Pode dirigir?
Em geral, não. Como não há sedação, a maioria volta às atividades no mesmo dia, inclusive ao volante. Compressa fria por 20 minutos ajuda no inchaço. Procure o serviço se o inchaço, o calor, a vermelhidão ou a secreção no local piorarem, ou se houver febre de 38,3 °C ou mais. Falta de ar é emergência.
- Quanto tempo demora o resultado da punção de tireoide?
Depende do laboratório de patologia, que prepara o material e o analisa ao microscópio; em geral, sai em até cerca de uma semana. O laudo traz a categoria Bethesda, de I a VI, e a descrição das células. Não o leia sozinho: a conduta depende também do ultrassom, do TSH e da sua história.
- Punção de tireoide é o mesmo que biópsia?
É um tipo de biópsia. A PAAF usa agulha fina e retira células, analisadas pela citologia. A biópsia por agulha grossa retira um fragmento de tecido; pela diretriz europeia de 2023, pode substituir a cirurgia diagnóstica quando punções repetidas não trazem material suficiente. Para a maioria dos nódulos, a PAAF é o exame indicado.
- Bethesda 1 na punção de tireoide: o que fazer?
Bethesda I significa material insuficiente: as células colhidas não bastaram para o diagnóstico. A conduta é repetir a punção guiada por ultrassom, sem necessidade de esperar três meses; em até 80% das vezes, a nova punção resolve. Se continuar insuficiente, decide-se entre acompanhamento próximo, biópsia por agulha grossa ou cirurgia, conforme o ultrassom.
- Bethesda 2 na tireoide: o que significa e precisa repetir a punção?
Significa benigno: na 3ª edição do Bethesda, o risco médio de câncer é de 4%. É o resultado mais comum, e a conduta é acompanhar com ultrassom. Nova punção só se o nódulo crescer de forma relevante, surgirem sinais suspeitos ou o ultrassom já for muito suspeito. Depois de duas punções benignas no mesmo nódulo, a diretriz europeia dispensa nova punção.
- Bethesda 4 é câncer?
Não necessariamente. No Bethesda 2023, o risco médio de câncer na neoplasia folicular é de 30%: de cada 10 nódulos, cerca de 7 são benignos. A punção não separa adenoma de carcinoma folicular, porque a diferença está na invasão da cápsula ou dos vasos, vista só na peça operada. Por isso, a conduta habitual é teste molecular, quando disponível, ou retirada do lobo para diagnóstico.
Entenda o seu laudo com orientação individual
Se recebeu um pedido de punção ou um resultado Bethesda, leve os laudos e as imagens do ultrassom. Anote as perguntas para fazer ao endocrinologista e, se a consulta for online, veja como se preparar para a teleconsulta.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
- Ali SZ, Baloch ZW, Cochand-Priollet B, Schmitt FC, Vielh P, VanderLaan PA. The 2023 Bethesda System for Reporting Thyroid Cytopathology. Thyroid. 2023;33(9):1039-1044. doi:10.1089/thy.2023.0141.
- Durante C, Hegedüs L, Czarniecka A, et al. 2023 European Thyroid Association Clinical Practice Guidelines for thyroid nodule management. Eur Thyroid J. 2023;12(5):e230067. doi:10.1530/ETJ-23-0067.
- Haugen BR, Alexander EK, Bible KC, et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid. 2016;26(1):1-133. doi:10.1089/thy.2015.0020.
- Tessler FN, Middleton WD, Grant EG, et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. J Am Coll Radiol. 2017;14(5):587-595. doi:10.1016/j.jacr.2017.01.046.
- Park JY, Choi W, Hong AR, Yoon JH, Kim HK, Kang HC. A Comprehensive Assessment of the Harms of Fine-Needle Aspiration Biopsy for Thyroid Nodules: A Systematic Review. Endocrinol Metab (Seoul). 2023;38(1):104-116. doi:10.3803/EnM.2023.1669.
- Patel IJ, Rahim S, Davidson JC, et al. Society of Interventional Radiology Consensus Guidelines for the Periprocedural Management of Thrombotic and Bleeding Risk in Patients Undergoing Percutaneous Image-Guided Interventions—Part II: Recommendations. J Vasc Interv Radiol. 2019;30(8):1168-1184. doi:10.1016/j.jvir.2019.04.017.
- American Thyroid Association. Fine Needle Aspiration Biopsy of Thyroid Nodules. Acesso em 29 out 2026. Disponível em: https://www.thyroid.org/fna-thyroid-nodules/.
- Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Fine Needle Aspiration (FNA) of Your Thyroid. Atualizado em 16 jul 2026. Acesso em 29 out 2026.
- Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Relatório de recomendação preliminar UAT 95: teste molecular para nódulos de tireoide por perfil de microRNA (TMT-microRNA). Consulta Pública nº 117. Rio de Janeiro: ANS; 2023.
