Reposição de Testosterona e Coração
Reposição de Testosterona e Coração: o que o estudo TRAVERSE realmente mostrou
TL;DR — Resumo rápido
- O estudo TRAVERSE (2023) mostrou que a reposição de testosterona não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular em homens de alto risco.
- "Não inferior ao placebo" não é o mesmo que "totalmente sem riscos": houve mais fibrilação atrial, embolia pulmonar e injúria renal.
- Com base nesses dados, o FDA removeu em 2025 o alerta de infarto/AVC criado em 2014, mantendo cautelas específicas.
- A reposição é segura quando há indicação clínica real (hipogonadismo confirmado), não como recurso estético ou "antienvelhecimento".
- Procure um endocrinologista antes de iniciar: a decisão depende de sintomas, exames e do seu risco individual.
A pergunta que chega ao consultório: "Doutor, testosterona faz mal ao coração?"
É uma das dúvidas mais frequentes entre homens a partir dos 40 anos. A pergunta tem boa razão de existir: por quase uma década, as bulas de testosterona carregaram um alerta de risco de infarto e AVC. Esse receio se espalhou — e, muitas vezes, afastou de um tratamento legítimo justamente quem mais precisava dele.
A boa notícia é que hoje temos uma resposta muito mais sólida do que tínhamos em 2014. Ela veio do maior estudo já desenhado para responder exatamente a essa questão: o TRAVERSE. E ela é mais matizada — e mais tranquilizadora — do que os dois extremos do debate sugerem.
Neste artigo, você vai entender o que o TRAVERSE encontrou, o que ele não respondeu, e por que a frase "seguro quando bem indicado" resume melhor a ciência atual do que qualquer manchete.
Definição rápida: Hipogonadismo masculino é a condição em que os testículos produzem testosterona insuficiente, gerando sintomas como queda de libido, fadiga, perda de massa muscular e alterações de humor.
O que Você Precisa Saber
O TRAVERSE foi desenhado para a pergunta certa. É um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, com mais de 5.200 homens de 45 a 80 anos, todos com hipogonadismo confirmado e doença cardiovascular já estabelecida ou alto risco. Ou seja: testou a testosterona justamente na população mais vulnerável.
O resultado principal foi de não inferioridade. A testosterona não aumentou os eventos cardiovasculares maiores (infarto não fatal, AVC não fatal e morte cardiovascular) em comparação ao placebo. As taxas foram praticamente idênticas: 7,0% no grupo testosterona contra 7,3% no placebo.
Houve sinais de alerta secundários. O grupo testosterona apresentou mais fibrilação atrial, mais embolia pulmonar e mais injúria renal aguda. São eventos menos comuns, mas que mudam a forma de monitorar o paciente — não anulam a segurança cardiovascular global, mas exigem critério.
A regulação acompanhou a evidência. Em 2025, o FDA removeu das bulas o alerta de infarto e AVC criado em 2014, com base no TRAVERSE — e adicionou um novo alerta sobre aumento de pressão arterial.
De onde veio o medo: o alerta do FDA de 2014
Em janeiro de 2014, o FDA (agência reguladora americana) emitiu um comunicado de segurança alertando para possíveis riscos de infarto, AVC e morte associados à testosterona. Naquele momento, a evidência era frágil e contraditória: alguns estudos observacionais sugeriam risco, outros não, e um ensaio pequeno havia sido interrompido por mais eventos cardiovasculares no grupo tratado.
Diante da incerteza, em setembro de 2014 um comitê consultivo do FDA recomendou algo raro e importante: um grande ensaio clínico dedicado para resolver a dúvida de uma vez. Em 2015, as bulas passaram a recomendar cautela e a restringir o uso ao hipogonadismo com causa identificada.
Esse foi o nascimento do TRAVERSE. Em outras palavras, o estudo não surgiu de uma curiosidade acadêmica — surgiu de uma exigência regulatória para proteger pacientes.
O estudo TRAVERSE é o maior ensaio clínico randomizado já realizado sobre a segurança cardiovascular da reposição de testosterona. Avaliou mais de 5.200 homens com hipogonadismo e risco cardiovascular elevado, comparando testosterona em gel com placebo.
O resultado principal: não inferioridade para eventos cardiovasculares
Publicado em 2023 no New England Journal of Medicine (Lincoff, Bhasin e colaboradores), o TRAVERSE usou gel transdérmico de testosterona versus placebo, com seguimento médio em torno de 33 meses. O desfecho principal era o MACE.
Definição rápida: MACE é a sigla para "eventos cardiovasculares adversos maiores" — o conjunto de infarto do miocárdio não fatal, AVC não fatal e morte por causa cardiovascular.
O achado foi claro: a testosterona foi não inferior ao placebo. As taxas de MACE ficaram em 7,0% no grupo testosterona e 7,3% no grupo placebo — uma diferença sem significado clínico. Para uma população de altíssimo risco, isso é uma mensagem poderosa: repor testosterona em quem tem indicação não cobrou um preço cardiovascular.
Foi exatamente esse resultado que sustentou a virada regulatória. Em 28 de fevereiro de 2025, o FDA removeu das bulas o alerta de infarto e AVC que existia desde 2014.
As ressalvas: por que "não inferior" não significa "tão seguro quanto placebo"
Aqui está o ponto que separa a leitura honesta da leitura simplista. O TRAVERSE encontrou, no grupo testosterona, mais alguns eventos específicos:
- Fibrilação atrial: 3,5% vs 2,4% no placebo.
- Embolia pulmonar: 0,9% vs 0,5%.
- Injúria renal aguda: 2,3% vs 1,5%.
- Arritmias não fatais que exigiram intervenção: 5,2% vs 3,3%.
Definição rápida: Fibrilação atrial é um ritmo cardíaco irregular e acelerado que, se não tratado, aumenta o risco de AVC. Embolia pulmonar é a obstrução de uma artéria do pulmão por um coágulo, geralmente vindo das pernas.
Esses sinais não foram esperados pelos pesquisadores e não tornam a testosterona "perigosa". Mas eles reforçam algo que as diretrizes já recomendavam: cautela em homens com histórico de trombose (trombose venosa profunda ou embolia pulmonar) e atenção a quem já tem predisposição a arritmias ou doença renal.
Há ainda um sinal adicional vindo de estudos de monitorização da pressão: a testosterona se associou a um leve aumento da pressão arterial. Por isso o FDA, ao retirar o alerta cardiovascular, acrescentou um novo alerta de pressão às bulas. Tratar bem significa, também, acompanhar a pressão.
Segundo a Endocrine Society e o posicionamento conjunto SBEM/SBU/ABEMSS, a reposição de testosterona deve ser indicada apenas a homens com sintomas persistentes de deficiência androgênica e testosterona total inequivocamente baixa, após excluir contraindicações como trombose prévia, insuficiência cardíaca descompensada e câncer de próstata, com monitorização periódica de PSA, hematócrito e pressão arterial.
As limitações do estudo: o que o TRAVERSE não respondeu
Nenhum estudo responde tudo, e reconhecer os limites é parte do rigor.
Formulação em gel. O TRAVERSE usou gel transdérmico, que produz níveis fisiológicos e estáveis de testosterona. Os resultados não podem ser automaticamente transferidos para injetáveis de depósito que geram picos suprafisiológicos — e muito menos para doses de abuso anabolizante.
Tempo de seguimento. Cerca de 33 meses é robusto, mas não responde sobre riscos de uso por 10 ou 20 anos.
População específica. Foram homens de 45 a 80 anos, com hipogonadismo confirmado e alto risco cardiovascular. O estudo não avaliou homens jovens, saudáveis e sem deficiência hormonal — exatamente o perfil que mais procura testosterona por motivos estéticos.
Adesão. A aderência ao tratamento foi menor que em muitos estudos cardiovasculares, o que pode atenuar tanto benefícios quanto riscos observados.
Uso clínico não é uso estético: a distinção que muda tudo
Talvez a maior fonte de confusão pública seja misturar duas coisas completamente diferentes: repor um hormônio que está faltando e adicionar hormônio em quem já tem o suficiente.
A reposição de testosterona é um tratamento médico para o hipogonadismo — uma condição com sintomas, exames e critérios. O uso estético ou "para performance", com doses elevadas em homens com testosterona normal, é outra história: não tem respaldo do TRAVERSE, não tem indicação nas diretrizes e carrega riscos reais (poliglobulia, infertilidade, supressão do eixo, eventos cardiovasculares com doses de abuso).
Aqui vale o princípio que repito no consultório: não existe equilíbrio, existe prioridade. A prioridade da reposição é corrigir uma deficiência documentada e devolver qualidade de vida — não esculpir um corpo. Quando a indicação é correta, a ciência é tranquilizadora. Quando ela vira atalho cosmético, o cálculo de risco-benefício se inverte.
No Brasil, o hipogonadismo está frequentemente ligado a obesidade, síndrome metabólica e resistência à insulina — e, nesses casos, perda de peso e controle metabólico podem, por si só, recuperar parte da produção hormonal antes de qualquer reposição.
No estudo TRAVERSE, a incidência de eventos cardiovasculares maiores foi de 7,0% no grupo testosterona e 7,3% no placebo, ao longo de cerca de 33 meses de seguimento em homens de alto risco. Em 2025, com base nesses dados, o FDA removeu das bulas o alerta de infarto e AVC que vigorava desde 2014.
Como isso se traduz na prática: a abordagem brasileira
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) de 2025 já incorpora o TRAVERSE e recomenda tratar o hipogonadismo masculino sintomático com reposição, visando melhora de qualidade de vida, composição corporal e parâmetros metabólicos.
O posicionamento conjunto SBEM/SBU/ABEMSS reforça que a TRT é indicada exclusivamente quando há sintomas persistentes somados a testosterona inequivocamente baixa, com alvo terapêutico na faixa médio-normal (aproximadamente 450–600 ng/dL). O acompanhamento inclui dosagem de PSA, hematócrito e, agora, pressão arterial.
Na prática, repor testosterona com segurança é um processo, não um gesto isolado. Conheça mais sobre o tratamento do hipogonadismo e quando ele faz sentido.
Principais Pontos
- O TRAVERSE mostrou que a reposição de testosterona não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular em homens de alto risco.
- "Não inferior ao placebo" significa segurança cardiovascular global — não ausência total de qualquer risco.
- Houve mais fibrilação atrial, embolia pulmonar e injúria renal aguda no grupo testosterona; isso orienta cautela e monitorização.
- Com base no estudo, o FDA removeu o alerta de infarto/AVC em 2025 e adicionou um alerta de pressão arterial.
- Os resultados valem para gel em dose fisiológica, não para injetáveis de pico alto nem para uso anabolizante.
- A reposição é segura quando há hipogonadismo confirmado — não como recurso estético.
- No Brasil, SBEM/SBU/ABEMSS e SBD recomendam indicação precisa e acompanhamento de PSA, hematócrito e pressão.
Erros Comuns
Erro: achar que testosterona "engrossa o sangue e entope o coração".
Existe o risco de elevação do hematócrito (poliglobulia), que é monitorável e tratável. Mas o TRAVERSE não mostrou aumento de infarto ou AVC. O risco real está no uso sem indicação e sem acompanhamento, não no hormônio reposto corretamente.
Erro: interpretar o TRAVERSE como "liberação geral".
O estudo testou homens com hipogonadismo e gel em dose fisiológica. Ele não autoriza uso estético, doses de pico ou reposição em quem tem testosterona normal. Confundir as duas situações é o erro mais perigoso.
Erro: ignorar o histórico de trombose.
Homens com trombose venosa profunda ou embolia pulmonar prévias entram em uma categoria de cautela. O aumento de embolia pulmonar no estudo reforça que esse histórico precisa ser avaliado antes de iniciar.
Erro: começar testosterona por conta própria ou em academia.
Sem exames, sem confirmação diagnóstica e sem monitorização, o tratamento perde a margem de segurança que o TRAVERSE demonstrou. A segurança observada depende de indicação correta e acompanhamento.
Erro: esperar que a testosterona resolva sintomas que são de outra causa.
Cansaço, baixa libido e ganho de peso têm múltiplas origens — sono, depressão, tireoide, diabetes. Repor testosterona sem deficiência real não corrige esses problemas e ainda expõe a riscos desnecessários.
Perguntas Frequentes (FAQ)
A reposição de testosterona faz mal ao coração?
Em homens com hipogonadismo confirmado, o estudo TRAVERSE mostrou que a reposição em gel não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular, mesmo em pacientes de alto risco. Por isso o FDA removeu o alerta cardiovascular em 2025. A segurança, porém, depende de indicação correta e acompanhamento.
Qual a diferença entre uso clínico e uso estético da testosterona?
O uso clínico repõe um hormônio deficiente em homens com hipogonadismo diagnosticado, em doses fisiológicas. O uso estético adiciona testosterona em quem já tem níveis normais, geralmente em doses altas. O TRAVERSE avaliou apenas o primeiro; o segundo não tem respaldo das diretrizes.
O TRAVERSE provou que a testosterona é totalmente segura?
Não. Ele mostrou segurança cardiovascular global, mas também identificou mais fibrilação atrial, embolia pulmonar e injúria renal aguda no grupo tratado. "Não inferior ao placebo" significa que não houve aumento de infarto e AVC, não que o tratamento é isento de qualquer risco.
Testosterona aumenta o risco de trombose?
No TRAVERSE houve discreto aumento de embolia pulmonar (0,9% vs 0,5%). As diretrizes recomendam cautela em homens com histórico de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar. Esse histórico deve ser avaliado antes de iniciar o tratamento.
Quem tem pressão alta pode fazer reposição?
Pode, mas com acompanhamento. Estudos de monitorização mostraram leve aumento da pressão arterial com testosterona, o que levou o FDA a incluir um alerta específico nas bulas em 2025. O controle pressórico deve fazer parte do seguimento.
Os resultados valem para testosterona injetável?
O TRAVERSE usou gel transdérmico, que gera níveis estáveis e fisiológicos. Injetáveis de depósito podem produzir picos mais altos, e os achados não se transferem automaticamente. A escolha da formulação deve ser individualizada com seu médico.
Como sei se preciso de reposição de testosterona?
O diagnóstico exige sintomas persistentes (queda de libido, fadiga, perda muscular) somados a pelo menos duas dosagens matinais de testosterona total baixa, em jejum, com exclusão de outras causas. Não se diagnostica hipogonadismo por um único exame ou apenas pelos sintomas.
Quando devo procurar um endocrinologista?
Se você tem sintomas sugestivos de testosterona baixa, fatores de risco como obesidade ou diabetes, ou está considerando reposição, procure um endocrinologista antes de iniciar qualquer tratamento. A avaliação individual define se a reposição é segura e indicada no seu caso.
Sobre o autor. Este artigo foi escrito pelo Dr. Rodrigo Bomeny, endocrinologista e metabologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, com residência no Hospital das Clínicas da USP e aproximadamente 20 anos de experiência clínica em diabetes, obesidade e doenças metabólicas. Conheça mais sobre o Dr. Rodrigo Bomeny.
Quer saber se a reposição de testosterona é indicada e segura no seu caso? A decisão depende de sintomas, exames e do seu risco cardiovascular individual — e isso exige avaliação médica. Agende sua consulta no Campo Belo ou no Hospital Albert Einstein, ou consulte por telemedicina de onde estiver.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Não inicie nem ajuste tratamento hormonal sem avaliação individual.
