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Testosterona baixa e osteoporose: reposição previne fraturas?

Testosterona baixa e osteoporose: a reposição previne fraturas?

TL;DR — Resumo Rápido

  • A testosterona baixa pode contribuir para a perda óssea, mas raramente é a única causa de osteoporose no homem.
  • A reposição de testosterona aumenta a densidade óssea, mas não demonstrou reduzir fraturas.
  • No estudo TRAVERSE, as fraturas foram mais frequentes no grupo tratado com testosterona do que no placebo.
  • Homem com alto risco de fratura precisa de medicamento específico para osteoporose, com eficácia comprovada.
  • Não inicie nem suspenda testosterona por conta própria; revise a indicação com seu endocrinologista.

Quase toda semana recebo no consultório um homem com dois exames na mão: uma testosterona baixa e uma densitometria mostrando osteopenia ou osteoporose. A conclusão dele costuma ser imediata: “Se eu repuser o hormônio, meus ossos ficam protegidos”.

Entendo o raciocínio. A relação entre testosterona e osso existe, e é real. Mas a conclusão está incompleta, e isso pode custar caro: confiar apenas na reposição pode atrasar o tratamento que de fato reduz fraturas.

Neste artigo, explico o que a ciência mostra hoje, como eu interpreto o estudo TRAVERSE e o que considero essencial para proteger os ossos de um homem com hipogonadismo.

Osteoporose masculina é uma doença em que o osso perde massa e qualidade, ficando frágil a ponto de quebrar com traumas pequenos, como uma queda da própria altura. Também atinge homens, embora seja menos lembrada.

O que Você Precisa Saber

A testosterona participa da saúde óssea, em parte por meio do estradiol. No homem, parte da testosterona é transformada em estradiol, hormônio que freia a destruição do osso. Por isso, uma deficiência hormonal verdadeira pode acelerar a perda óssea. Isso não significa que toda osteoporose masculina seja hormonal, nem que todo resultado baixo justifique reposição.

Densidade óssea maior não é o mesmo que menos fraturas. A densitometria mede a quantidade de mineral no osso, mas a chance de quebrar depende também da arquitetura óssea, da força muscular e das quedas. Um tratamento precisa provar que reduz fraturas antes de ser apresentado como prevenção.

O maior estudo sobre o tema não mostrou proteção contra fraturas. No TRAVERSE, com mais de 5 mil homens com hipogonadismo, a testosterona não reduziu fraturas clínicas em cerca de três anos. As fraturas foram, inclusive, numericamente mais frequentes no grupo tratado.

Hipogonadismo e osteoporose são decisões separadas que podem coexistir. Um homem pode ter indicação de repor testosterona por sintomas e, ao mesmo tempo, precisar de um remédio específico para osteoporose. Avaliar os dois problemas em conjunto evita lacunas no tratamento.

Como a testosterona age nos ossos?

O osso é um tecido vivo. Ele é constantemente demolido e reconstruído, num ciclo chamado remodelação óssea. Quando a demolição supera a reconstrução, o osso vai ficando mais poroso e frágil.

Nos homens, a testosterona ajuda nesse equilíbrio de duas formas:

  • Diretamente, estimulando as células que formam osso e contribuindo para a espessura do osso.
  • Indiretamente, ao ser convertida em estradiol pela enzima aromatase.

Aromatase é a enzima que transforma parte da testosterona em estradiol, o principal estrogênio. No homem, ela acontece sobretudo no tecido gorduroso e no próprio osso.

Um dado que surpreende muitos pacientes: estudos com homens idosos mostraram que o estradiol é o principal freio da reabsorção óssea masculina, enquanto testosterona e estradiol atuam juntos na formação. Ou seja, o osso do homem também depende de estrogênio.

A testosterona também tem um efeito indireto importante: ela ajuda a manter massa e força muscular. Músculo forte protege o osso de duas maneiras: estimula o esqueleto e reduz o risco de quedas.

Osteoporose masculina: uma doença subestimada

Existe a ideia de que osteoporose é “coisa de mulher”. Não é. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de um em cada cinco homens com 50 anos ou mais terá uma fratura relacionada à fragilidade óssea ao longo da vida.

O problema é que o homem costuma ser investigado tarde, muitas vezes só depois da primeira fratura. E a fratura de quadril no homem é especialmente grave: a mortalidade masculina após esse tipo de fratura chega a ser cerca de duas vezes maior que a feminina, segundo a Fundação Internacional de Osteoporose (IOF).

No Brasil, um levantamento de internações em uma cidade da região Sul encontrou 153 fraturas de quadril por 100 mil homens a cada ano, um número que tende a crescer com o envelhecimento da população.

Cerca de 20% dos homens com 50 anos ou mais terão uma fratura por fragilidade óssea, segundo o Ministério da Saúde. Após uma fratura de quadril, a mortalidade masculina é proporcionalmente maior que a feminina, o que torna a prevenção ainda mais importante.

Quais são as principais causas de osteoporose no homem?

Nos homens, em cerca de metade dos casos existe uma causa secundária, isto é, uma doença, hábito ou medicamento que está enfraquecendo o osso. Por isso, sempre investigo antes de tratar. As causas mais frequentes que vejo são:

  • Hipogonadismo (testosterona baixa confirmada).
  • Uso prolongado de corticoides, como prednisona.
  • Bloqueio hormonal para câncer de próstata (privação androgênica), que derruba a testosterona de forma intensa.
  • Consumo excessivo de álcool e tabagismo.
  • Diabetes, que aumenta o risco de fratura mesmo com densitometria aparentemente normal.
  • Excesso de hormônio tireoidiano, por hipertireoidismo ou dose alta de levotiroxina.
  • Hiperparatireoidismo, doença celíaca e outras condições de má absorção, incluindo pós-cirurgia bariátrica.
  • Baixo peso e sedentarismo.

Se você tem diabetes, vale lembrar que o controle glicêmico e a prevenção de quedas também fazem parte da proteção óssea.

Como confirmar que a testosterona está realmente baixa?

O diagnóstico de hipogonadismo combina sintomas compatíveis com resultados consistentemente baixos, colhidos nas condições certas. Um exame isolado, especialmente feito durante uma doença aguda, após noite mal dormida ou em horário inadequado, pode levar a uma interpretação errada.

Hipogonadismo masculino é a deficiência de testosterona confirmada pela combinação de sintomas ou sinais com dosagens hormonais adequadas. Não é sinônimo de envelhecimento nem de um único exame alterado.

Na prática, peço a repetição da testosterona total pela manhã, em jejum. Dependendo do caso, também avalio LH, FSH, SHBG e prolactina, que mostram se o problema está nos testículos ou na hipófise, a glândula que os comanda. No artigo sobre sintomas de testosterona baixa, detalho esse processo.

Perda de altura, fratura após trauma pequeno ou uso prolongado de corticoides acrescentam informações à avaliação óssea. E a ausência de dor não exclui osteoporose: muitas vezes a fragilidade só aparece quando o osso quebra.

O que os estudos mostram: a densidade sobe, mas as fraturas não caem

T Trials: osso mais denso no exame

Os T Trials, publicados em 2017, avaliaram homens com 65 anos ou mais e testosterona baixa. Após um ano, a reposição aumentou a densidade e a resistência estimada do osso, principalmente na coluna. Foi um resultado animador, mas o estudo era pequeno e curto demais para medir fraturas.

TRAVERSE: o primeiro grande estudo a medir fraturas

O estudo TRAVERSE, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, acompanhou 5.204 homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo e doença cardiovascular ou risco cardiovascular elevado. Eles usaram gel de testosterona ou placebo.

Após acompanhamento mediano de 3,19 anos, fraturas clínicas ocorreram em 3,50% do grupo testosterona e em 2,46% do grupo placebo. Em outras palavras, a reposição não reduziu fraturas, e os eventos foram mais frequentes entre os tratados.

No estudo TRAVERSE, com 5.204 homens com hipogonadismo, fraturas clínicas ocorreram em 3,50% dos que usaram testosterona e em 2,46% dos que usaram placebo, em cerca de três anos. A reposição não reduziu fraturas.

Como eu interpreto esses resultados

Gosto de olhar o estudo com calma, sem exagerar para nenhum dos lados:

  • A maioria das fraturas foi causada por trauma, principalmente quedas. Uma das hipóteses levantadas é que homens com mais disposição se expõem mais a atividades com risco de queda.
  • As fraturas osteoporóticas clássicas (coluna, quadril e punho) foram praticamente iguais entre os grupos.
  • O estudo não incluiu homens com hipogonadismo muito grave (testosterona abaixo de 100 ng/dL) nem com doença da hipófise, justamente os que, em teoria, mais se beneficiariam.
  • Avaliou apenas o gel de testosterona, e não todas as formas de reposição.

Mesmo com essas ressalvas, minha conclusão é clara: não é possível prometer que a testosterona previne fraturas com base apenas na melhora da densitometria. Os próprios autores recomendam que homens com alto risco de fratura recebam medicamento antifratura comprovado, independentemente da decisão sobre testosterona.

A análise óssea também é diferente da discussão sobre reposição de testosterona e coração. Um resultado favorável em um desfecho não pode ser transferido automaticamente para outro.

Quando o homem precisa investigar osteoporose?

A Endocrine Society recomenda densitometria para homens a partir de 70 anos e, entre 50 e 69 anos, quando há fatores de risco. Uma fratura por fragilidade, uso de corticoide, bloqueio hormonal, tabagismo ou baixo peso podem justificar a investigação antes disso.

Densitometria óssea (DXA) é um exame rápido, indolor e de baixíssima radiação que mede a densidade mineral da coluna e do quadril. O resultado é expresso como T-score, que compara seu osso ao de um adulto jovem.

Além da densitometria, costumo usar o FRAX, uma calculadora que estima a chance de fratura em 10 anos combinando idade, peso, fraturas anteriores, corticoides, álcool e outros fatores. Quando há perda de altura ou dor nas costas, peço também uma avaliação da coluna para detectar fraturas vertebrais silenciosas.

Na investigação laboratorial, entram cálcio, vitamina D, PTH, função renal, função tireoidiana e, quando indicado, exames para causas específicas. Não é necessário comprar um “painel hormonal completo” antes da consulta.

Como proteger os ossos na prática

Medidas que valem para todos

  • Exercícios de força e equilíbrio, adaptados à sua condição. São os que mais protegem contra quedas e estimulam o osso.
  • Proteína adequada. Uso no consultório a Relação Proteína|Energia (P:E) para ajustar a proteína à quantidade total de comida, preservando músculo, inclusive durante o emagrecimento.
  • Cálcio preferencialmente pela alimentação e correção da vitamina D quando houver deficiência. Doses maiores não significam mais proteção.
  • Menos álcool e nada de cigarro.
  • Prevenção de quedas: revisão da visão, de medicamentos que dão tontura, iluminação e tapetes em casa.

Quando é preciso remédio para osteoporose

Quando o risco de fratura é alto, indico medicamentos com eficácia comprovada para osteoporose masculina, como bisfosfonatos, denosumabe ou teriparatida. A escolha depende da função renal, de fraturas anteriores, da tolerância e de outras doenças.

No cuidado com o osso, não existe equilíbrio, existe prioridade. Se o risco de fratura é alto, a prioridade é o remédio que reduz fraturas. A testosterona não deve ocupar esse lugar automaticamente.

Se você tem testosterona baixa e perda óssea, o mais seguro é tratar as duas condições separadamente: confirmar o hipogonadismo antes de repor e, se o risco de fratura for alto, usar um medicamento com eficácia antifratura comprovada, associado a exercícios de força, proteína adequada e prevenção de quedas.

E quem já faz reposição de testosterona?

Não suspenda por conta própria. A reposição pode ter boas razões em quem tem hipogonadismo confirmado, como melhora da libido, da disposição e da anemia. O que muda é a expectativa: ela não substitui o tratamento da osteoporose.

O tratamento do hipogonadismo exige acompanhamento próprio, com controle do hematócrito, da próstata e da pressão arterial. A reposição também pode reduzir a produção de espermatozoides, ponto que precisa ser discutido quando há desejo de ter filhos.

Se você está nessa situação, agende uma avaliação para organizarmos a investigação hormonal e óssea no mesmo cuidado.

Principais Pontos

  • Hipogonadismo masculino não se confirma por cansaço ou por um único exame de laboratório.
  • Parte do efeito da testosterona no osso depende da sua conversão em estradiol.
  • Cerca de metade dos homens com osteoporose tem uma causa secundária que precisa ser investigada.
  • A reposição de testosterona aumenta a densidade óssea, mas não demonstrou reduzir fraturas.
  • No TRAVERSE, as fraturas foram mais frequentes com testosterona, a maioria associada a quedas.
  • Osteoporose com alto risco de fratura deve ser tratada com medicamento específico.
  • Força muscular, proteína adequada e prevenção de quedas protegem os ossos em qualquer cenário.
  • Quem já faz reposição deve revisar o plano com o médico, sem mudanças por conta própria.

Erros Comuns

Erro: achar que homem não tem osteoporose
Esse mito atrasa o diagnóstico. Cerca de um em cada cinco homens acima de 50 anos terá uma fratura por fragilidade, e a mortalidade masculina após fratura de quadril é alta. Homens com fatores de risco devem ser investigados.

Erro: confiar só na densitometria e ignorar fraturas anteriores
Uma fratura prévia por trauma pequeno pode indicar alto risco, mesmo com densitometria só de osteopenia. Informe ao médico qualquer fratura, ainda que tenha acontecido anos atrás.

Erro: usar testosterona “no máximo” para fortalecer os ossos
Níveis acima do normal não são meta de saúde e aumentam efeitos adversos, como o excesso de glóbulos vermelhos. A reposição serve para corrigir uma deficiência confirmada, não para turbinar o esqueleto.

Erro: tratar a densitometria e esquecer a causa
Corticoides, álcool, bloqueio hormonal, diabetes e excesso de levotiroxina estão entre as causas mais comuns de osteoporose no homem. Sem corrigir a causa, qualquer tratamento rende menos.

Erro: trocar a prevenção de quedas por suplementos
Nenhuma cápsula elimina tropeços. Visão, equilíbrio, força e segurança em casa reduzem fraturas de forma concreta. Cálcio e vitamina D ajudam quando há falta, mas não substituem essas medidas.

Perguntas Frequentes

Testosterona baixa sempre causa osteoporose?

Não. A testosterona baixa pode contribuir para a perda óssea, mas existem muitas outras causas, como idade, baixo peso, corticoides, álcool, tabagismo e doenças. Além disso, um resultado baixo pode ser transitório. Por isso, investigo o hipogonadismo e a fragilidade óssea em conjunto, sem presumir que exista uma causa única.

A reposição de testosterona previne fraturas?

Até hoje, não há comprovação. A testosterona aumenta a densidade óssea em homens com hipogonadismo, mas o estudo TRAVERSE não mostrou redução de fraturas em cerca de três anos. As fraturas foram até mais frequentes no grupo tratado. Quem tem alto risco de fratura precisa de medicamento específico para osteoporose.

Se a densitometria melhorar com reposição, estou protegido?

A melhora é uma boa notícia, mas não garante ausência de fraturas. A resistência do osso depende também da sua arquitetura, da força muscular e das quedas. O acompanhamento deve considerar o risco de fratura como um todo, usando ferramentas como o FRAX, e não apenas o número da densitometria.

O resultado do TRAVERSE significa que devo parar a testosterona?

Não por conta própria. O estudo muda a forma de discutir os benefícios ósseos, mas a reposição pode ter outras indicações em quem tem hipogonadismo confirmado, como melhora da libido e da anemia. Converse com seu médico sobre o motivo do tratamento, os benefícios observados e a necessidade de tratar a osteoporose separadamente.

Qual a diferença entre osteopenia e osteoporose?

Osteopenia é uma redução moderada da densidade óssea; osteoporose é uma redução mais intensa ou a presença de fratura por fragilidade. Na prática, o tratamento não depende só do nome no laudo. Uma pessoa com osteopenia e fratura anterior pode ter risco alto e precisar de medicamento.

Preciso tomar cálcio e vitamina D junto com a testosterona?

Não automaticamente. Avalio primeiro a alimentação e os exames. O ideal é obter cálcio pelos alimentos e corrigir a vitamina D apenas quando houver deficiência. Doses altas sem indicação não trazem benefício extra e não substituem os remédios para osteoporose quando o risco de fratura é alto.

Exercício ajuda mesmo quando já existe osteoporose?

Sim. Exercícios de força e equilíbrio melhoram a capacidade funcional e reduzem quedas, a principal porta de entrada das fraturas. Quem já tem fratura vertebral ou dor importante precisa de orientação sobre movimentos e cargas. O plano deve começar de forma segura e progressiva.

Homem precisa fazer densitometria?

Sim, em situações específicas. A recomendação é fazer a partir dos 70 anos e, entre 50 e 69 anos, quando há fatores de risco, como corticoide, bloqueio hormonal para câncer de próstata, hipogonadismo, tabagismo, álcool em excesso ou fratura após trauma pequeno.

Quando procurar um endocrinologista por causa dos ossos?

Procure avaliação se tiver fratura após trauma pequeno, perda de altura, densitometria alterada, uso prolongado de corticoide ou suspeita de testosterona baixa. O endocrinologista investiga causas hormonais e define o tratamento. Dor intensa após queda ou dificuldade para apoiar a perna exigem atendimento imediato no pronto-socorro.

Cuide da sua saúde com orientação individual

Cada homem tem um risco de fratura diferente, e o tratamento precisa considerar hormônios, ossos, músculos e quedas ao mesmo tempo.

Agende uma consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo. Se preferir, a avaliação também pode começar por telemedicina.

Este artigo foi escrito pelo Dr. Rodrigo Bomeny, endocrinologista e metabologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, com residência no Hospital das Clínicas da USP e aproximadamente 20 anos de experiência clínica em diabetes, obesidade e doenças metabólicas. CRM-SP 129869 | RQE 60562.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual.

Referências

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  9. International Osteoporosis Foundation. A osteoporose afeta os homens também (ficha informativa).

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